Que extraordinária a observação do deputado Marcelo Ortiz, do Partido Verde de São Paulo, a respeito da remuneração dos parlamentares. Textualmente: “O Judiciário vai receber R$ 24.500 enquanto continuaremos apenas com os R$ 12 mil. E ninguém acredita que recebemos R$ 9.100 líquidos por mês.”
Puxa vida, que tristeza! Pobre deputado! - nove mil e cem reais por mês, fra o alho. São quinze salário por ano, em 2006 somados com mais dois meses de convocação extraordinária.
Fazendo as contas, e ficando só nos 9.100 reais, representam 26 vezes o novo valor, pedido e ainda não concedido, para o reajuste do salário mínimo. Claro, os 24.500 do Judiciário – o deputado se referia aos ministros do Supremo Tribunal Federal – são 70 vezes esse novo valor.
Trocando em miúdos, já que estamos falando em salário mínimo, um trabalhador comum terá de trabalhar 26 meses – dois anos e dois meses – para somar a remuneração líquida de um deputado federal. Ou 5 anose 8 meses para alcançar os proventos mensais de um ministro do Supremo Tribunal Federal.
Ninguém haveria de negar que membros da mais alta corte do país e deputados federais necessitem perceber bem mais do que o salário mínimo, para atender os gastos com a função. O que há é um enigma, talvez de fácil decifração: a relação entre o pequeno valor do novo salário mínimo, pedido e ainda não concedido, de R$ 350 reais, e as altas remunerações de algumas camadas da população – muito poucas, por sinal.
O que ninguém acredita é que, com R$ 350 reais por mês, alguém possa comer, vestir-se e educar os filhos, para que se tornem bons cidadãos.
terça-feira, 17 de janeiro de 2006
segunda-feira, 16 de janeiro de 2006
A cor da mosca - Jayme Copstein
Publicados os números da primeira pesquisa de intenção de voto para o governo do Estado, a mosca azul começou a zumbir. Todos são vencedores, todos chegarão lá, ainda que, sabido de todos, muitos serão chamados, poucos, escolhidos. No caso, apenas um será eleito.
O que ressalta de tudo isso é a arapuca da política brasileira, não só brasileira, mas de países ainda por amadurecer filosoficamente: o poder não é instrumento de atender às necessidades do povo e da Nação, mas apenas butim, disputado encarniçadamente pelos partidos, com a ideologia esmagada pelos interesses e vaidades pessoais. Esta é a verdadeira cor da mosca.
Não fosse assim, não se daria nenhuma importância a pesquisas de opinião feitas com tanta antecipação. Sem que o debate tenha se iniciado com a campanha eleitoral, o que se pode colher é o sentimento das pessoas no momento da abordagem. É de se imaginar o eleitor, o calor do verão lhe torrando a paciência, querendo mudanças que agitem, só para ter uma aragem que o alivie dos suores. Ou o contrário – não mexe, a gente já está se derretendo parado, não faz onda, por favor.
Ainda bem que o Carnaval está aí, para dar vazão a todas as fantasias.
O que ressalta de tudo isso é a arapuca da política brasileira, não só brasileira, mas de países ainda por amadurecer filosoficamente: o poder não é instrumento de atender às necessidades do povo e da Nação, mas apenas butim, disputado encarniçadamente pelos partidos, com a ideologia esmagada pelos interesses e vaidades pessoais. Esta é a verdadeira cor da mosca.
Não fosse assim, não se daria nenhuma importância a pesquisas de opinião feitas com tanta antecipação. Sem que o debate tenha se iniciado com a campanha eleitoral, o que se pode colher é o sentimento das pessoas no momento da abordagem. É de se imaginar o eleitor, o calor do verão lhe torrando a paciência, querendo mudanças que agitem, só para ter uma aragem que o alivie dos suores. Ou o contrário – não mexe, a gente já está se derretendo parado, não faz onda, por favor.
Ainda bem que o Carnaval está aí, para dar vazão a todas as fantasias.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2006
Sonho de uma noite de verão - Jayme Copstein
A operação tapa-buracos, anunciada em fins de dezembro, é o retrato de corpo inteiro do governo do sr. Luiz Inácio Lula da Silva. Por trás das frases pomposas, a incompetência, a improvisação e a demagogia.
O governo anunciou a tapa-buracos como se fosse uma façanha fora do comum, jamais praticada na história deste país, como o presidente gosta tanto de falar. As equipes do Dnit – Departamento Nacional de Infra-estrutura e Transportes – trabalharam uma madrugada inteira para formular a Operação. Três anos não foram suficientes para levantar quantas estradas necessitam apenas de remendos e quantas estão a exigir obra mais complexa para lhes devolver a trafegabilidade. De repente, em uma madrugada, a solução mágica.
No primeiro momento, a verba anunciada foi de 200 milhões de reais. Como isso não dá para nada, logo em seguida foi mais do que duplicada para 440 milhões de reais.
O jornal Valor acaba de botar as coisas nos seus devidos lugares: 440 milhões de reais é o que a Companhia de Concessões Rodoviárias gasta anualmente para a manutenção pura e simples dos dois mil quilômetros – não os 26.506 quilômetros anunciados na tapa-buracos – são apenas dois mil quilômetros dos trechos que administra no sistema Anhanguera-Bandeirantes e na Via Dutra.
Pois está aí em que consiste o plano mirabolante, gestado na insônia de uma madrugada quente de Brasília. Os buracos serão entupidos de areia e cascalho, maquiados com uma tênue cobertura de asfalto. Voltarão a ser buracos quando as águas de março – obrigado Tom Jobim – fecharem o verão.
O governo anunciou a tapa-buracos como se fosse uma façanha fora do comum, jamais praticada na história deste país, como o presidente gosta tanto de falar. As equipes do Dnit – Departamento Nacional de Infra-estrutura e Transportes – trabalharam uma madrugada inteira para formular a Operação. Três anos não foram suficientes para levantar quantas estradas necessitam apenas de remendos e quantas estão a exigir obra mais complexa para lhes devolver a trafegabilidade. De repente, em uma madrugada, a solução mágica.
No primeiro momento, a verba anunciada foi de 200 milhões de reais. Como isso não dá para nada, logo em seguida foi mais do que duplicada para 440 milhões de reais.
O jornal Valor acaba de botar as coisas nos seus devidos lugares: 440 milhões de reais é o que a Companhia de Concessões Rodoviárias gasta anualmente para a manutenção pura e simples dos dois mil quilômetros – não os 26.506 quilômetros anunciados na tapa-buracos – são apenas dois mil quilômetros dos trechos que administra no sistema Anhanguera-Bandeirantes e na Via Dutra.
Pois está aí em que consiste o plano mirabolante, gestado na insônia de uma madrugada quente de Brasília. Os buracos serão entupidos de areia e cascalho, maquiados com uma tênue cobertura de asfalto. Voltarão a ser buracos quando as águas de março – obrigado Tom Jobim – fecharem o verão.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2006
Todo o jeitinho será castigado - Jayme Copstein
O jeitinho de que tanto o brasileiro se orgulha é a chave da bagunça que assola o país. Está presente em cada minuto da nossa vida, desde a lata de tíner em um ônibus lotado à escolha do próximo ministro do Supremo Tribunal Federal.
O jeitinho vale para tudo. Para poupar alguns centavos de combustível, utilizando veículo mais apropriado no transporte do produto inflamável ou para transgredir a norma do cinto de segurança. Justifica a compra da peça mais barata, roubada do carro de alguém, o disco pirateado no camelô da esquina, o eletrônico contrabandeado do Paraguai. O que representa em mortes no trânsito, insegurança nas ruas, desemprego e miséria, não entra na conta.
O problema é que o jeitinho é como um câncer. Não poupa nenhum órgão do corpo. Quando um primeiro presidente da República estraçalhou a ética e deu jeito de nomear o amigo do peito, o parente chegado ou correligionário fiel para o Supremo Tribunal Federal, deu o primeiro canhonaço nesta verdadeira briga de bugios em que se transformou o preenchimento de vagas da mais alta corte da Nação.
O jeitinho vale para tudo. Para poupar alguns centavos de combustível, utilizando veículo mais apropriado no transporte do produto inflamável ou para transgredir a norma do cinto de segurança. Justifica a compra da peça mais barata, roubada do carro de alguém, o disco pirateado no camelô da esquina, o eletrônico contrabandeado do Paraguai. O que representa em mortes no trânsito, insegurança nas ruas, desemprego e miséria, não entra na conta.
O problema é que o jeitinho é como um câncer. Não poupa nenhum órgão do corpo. Quando um primeiro presidente da República estraçalhou a ética e deu jeito de nomear o amigo do peito, o parente chegado ou correligionário fiel para o Supremo Tribunal Federal, deu o primeiro canhonaço nesta verdadeira briga de bugios em que se transformou o preenchimento de vagas da mais alta corte da Nação.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2006
No país do Saci-Pererê - Jayme Copstein
O uso que se faz do Judiciário no Brasil, encontra exemplo acabado na decisão do Superior Tribunal de Justiça, mandando isentar do imposto de renda o valor dos 10 dias das férias que, eventualmente, empregados vendam aos seus patrões, como a lei permite.
A legislação é clara. Isenta apenas férias indenizadas em rescisões de contratos de trabalho. Mas, como levar vantagem em tudo e também cobrar pedágio sobre espertezas, parece ser a melhor parte da filosofia cabocla, os especialistas em catar vírgulas e pulgas na lei conseguiram separar a palavra indenização do contexto. Já há duas mil ações, percorrendo todas as instâncias até o STJ, entupindo a Justiça, e o pior, o STJ concedendo.
O raciocínio é elementar: se não há rescisão de contrato e o empregado trabalha os dez dias que lhe caberiam de férias, a indenização obtida por eles é semelhante a das horas extras. Portanto, tributável dentro da legislação em vigor.
Como são ações individuais, resulta daí bagunça digna do livro dos recordes: a Receita Federal tem de devolver, corrigido, com juros, o imposto já cobrado, mas continuará cobrando dos que ainda não entraram na Justiça, até a revogação das normas que a obrigam a isso.
E tudo acontece porque este é o país que pedimos a Deus. Quem atendeu, porém, foi o Saci Pererê.
A legislação é clara. Isenta apenas férias indenizadas em rescisões de contratos de trabalho. Mas, como levar vantagem em tudo e também cobrar pedágio sobre espertezas, parece ser a melhor parte da filosofia cabocla, os especialistas em catar vírgulas e pulgas na lei conseguiram separar a palavra indenização do contexto. Já há duas mil ações, percorrendo todas as instâncias até o STJ, entupindo a Justiça, e o pior, o STJ concedendo.
O raciocínio é elementar: se não há rescisão de contrato e o empregado trabalha os dez dias que lhe caberiam de férias, a indenização obtida por eles é semelhante a das horas extras. Portanto, tributável dentro da legislação em vigor.
Como são ações individuais, resulta daí bagunça digna do livro dos recordes: a Receita Federal tem de devolver, corrigido, com juros, o imposto já cobrado, mas continuará cobrando dos que ainda não entraram na Justiça, até a revogação das normas que a obrigam a isso.
E tudo acontece porque este é o país que pedimos a Deus. Quem atendeu, porém, foi o Saci Pererê.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2006
Anedota de português - Jayme Copstein
Um brasileiro, inteligente e espirituoso como todos os brasileiros, desfiava para um português, otário, como todos os portugueses, o interminável rosário de anedotas, com o “Manueli” de personagem.
O português riu de todas as piadas e até contribuiu para uma boa gargalhada. “Que coincidência”, ele disse. “Eu também me chamo Manueli”.
Enquanto os dois conversavam, veio a notícia: no incêndio da Previdência em Brasília, heroicamente os funcionários salvaram um quadro de Picasso que guarnecia as paredes do chefe da repartição.
Praticada a façanha, começaram as indagações. Como um quadro de Picasso, que vale uma fortuna, estava ali, no gabinete do chefe, à mercê dos gatunos ou das baratas, de quem chegasse primeiro.
Ora, chefe é chefe e merece o melhor, apesar de não ter a menor idéia de quem tenha sido Picasso.
Mas como sabiam que o quadro era de Picasso, se não tinha certificado de autenticação? Fora um devedor da Previdência que dera o quadro como pagamento de dívida vultosa e a Previdência aceitou pelo valor alegado, sem nenhuma perícia.
Nesse momento, o brasileiro que desfiava o interminável rosário de anedotas lusitanas, cansou de falar e perguntou ao “Manueli”:
- Vocês não criam anedotas de brasileiro?
O “Manueli” respondeu:
“E precisa?!.
O português riu de todas as piadas e até contribuiu para uma boa gargalhada. “Que coincidência”, ele disse. “Eu também me chamo Manueli”.
Enquanto os dois conversavam, veio a notícia: no incêndio da Previdência em Brasília, heroicamente os funcionários salvaram um quadro de Picasso que guarnecia as paredes do chefe da repartição.
Praticada a façanha, começaram as indagações. Como um quadro de Picasso, que vale uma fortuna, estava ali, no gabinete do chefe, à mercê dos gatunos ou das baratas, de quem chegasse primeiro.
Ora, chefe é chefe e merece o melhor, apesar de não ter a menor idéia de quem tenha sido Picasso.
Mas como sabiam que o quadro era de Picasso, se não tinha certificado de autenticação? Fora um devedor da Previdência que dera o quadro como pagamento de dívida vultosa e a Previdência aceitou pelo valor alegado, sem nenhuma perícia.
Nesse momento, o brasileiro que desfiava o interminável rosário de anedotas lusitanas, cansou de falar e perguntou ao “Manueli”:
- Vocês não criam anedotas de brasileiro?
O “Manueli” respondeu:
“E precisa?!.
O fim da picada - Jayme Copstein
O quadro que temos diante dos olhos nos mostra um paradoxo: o país vai bem, o governo e os políticos vão muito mal. Donde se deduz que o país andaria bem melhor, se a nossa política não tivesse se contaminado com toda a espécie de delinqüentes que transformaram o patrimônio público em butim de cangaceiros.
“É o fim da picada”, escreve Marcelo Carvalho, de Porto Alegre, ânimo demnolido e pensando até no voto branco ou no voto nulo, não levando em conta que a abstenção não impedirá o acesso dessas pessoas aos cargos eletivos.
O que estamos todos sentindo na carne, é o esgotamento do presidencialismo. Paulo Brossard em artigo publicado segunda-feiras em Zero Hora, sintentizou com notável precisão os seus defeitos e malefícios do sistema: trata os governos, sejam bons ou maus, com a mesma cega inflexibilidade.
O presidente tem dia e hora certa para sair, pouco importa que seja um estadista e devesse seguir conduzindo a Nação aos seus mais altos destinos; ou um demagogo incompetente que devesse ser alijado com urgência, por conduzir a Nação ao caos. O povo há de ficar lamentando a ausência prematura do primeiro, tão logo o mandato se esgote, há de sofrer e suportar a presença do segundo até que o interminável mandato se esgote.
O parlamentaristmo oferece a manutenção ou a correção do rumo, sempre dentro da mais absoluta legalidade. Os exemplos se multiplicam pelo mundo afora. Clássico é o da Inglaterra que chamou Winston Churchill, líder de personalidade forte, quase beirando ao autoritarismo, para resgatá-la da derrota que se desenhava na guerra contra os nazistas. Sobrevindo a paz, na primeira eleição havida, o eleitor inglês entregou reverentemente o boné a Sir Churchill porque os tempos eram outros. Estavam todos muitos agradecidos mas as necessidades do país tinham mudado.
Haverá quem pergunte, como de outras vezes em que o assunto foi abordado aqui – parlamentarismo com esses políticos que aí estão?
Não, com esses políticos que aí estão, conduzidos ao Congresso pela perversão chamada voto proporcional, não. Torna o mandato propriedade do eleito. Não tendo ele nenhuma satisfação a dar aos eleitores, com facilidade transforma o patrimônio público em butim, se cangaceiro for.
A reforma política mais urgente é a instituição do voto distrital. Aquele em que, olho no olho, o político diz ao eleitor do distrito o que se propõe a defender. Aquele em que, também olho no olho, o eleitor cassa o mandato do político se ele trair o voto que recebeu.
“É o fim da picada”, escreve Marcelo Carvalho, de Porto Alegre, ânimo demnolido e pensando até no voto branco ou no voto nulo, não levando em conta que a abstenção não impedirá o acesso dessas pessoas aos cargos eletivos.
O que estamos todos sentindo na carne, é o esgotamento do presidencialismo. Paulo Brossard em artigo publicado segunda-feiras em Zero Hora, sintentizou com notável precisão os seus defeitos e malefícios do sistema: trata os governos, sejam bons ou maus, com a mesma cega inflexibilidade.
O presidente tem dia e hora certa para sair, pouco importa que seja um estadista e devesse seguir conduzindo a Nação aos seus mais altos destinos; ou um demagogo incompetente que devesse ser alijado com urgência, por conduzir a Nação ao caos. O povo há de ficar lamentando a ausência prematura do primeiro, tão logo o mandato se esgote, há de sofrer e suportar a presença do segundo até que o interminável mandato se esgote.
O parlamentaristmo oferece a manutenção ou a correção do rumo, sempre dentro da mais absoluta legalidade. Os exemplos se multiplicam pelo mundo afora. Clássico é o da Inglaterra que chamou Winston Churchill, líder de personalidade forte, quase beirando ao autoritarismo, para resgatá-la da derrota que se desenhava na guerra contra os nazistas. Sobrevindo a paz, na primeira eleição havida, o eleitor inglês entregou reverentemente o boné a Sir Churchill porque os tempos eram outros. Estavam todos muitos agradecidos mas as necessidades do país tinham mudado.
Haverá quem pergunte, como de outras vezes em que o assunto foi abordado aqui – parlamentarismo com esses políticos que aí estão?
Não, com esses políticos que aí estão, conduzidos ao Congresso pela perversão chamada voto proporcional, não. Torna o mandato propriedade do eleito. Não tendo ele nenhuma satisfação a dar aos eleitores, com facilidade transforma o patrimônio público em butim, se cangaceiro for.
A reforma política mais urgente é a instituição do voto distrital. Aquele em que, olho no olho, o político diz ao eleitor do distrito o que se propõe a defender. Aquele em que, também olho no olho, o eleitor cassa o mandato do político se ele trair o voto que recebeu.
terça-feira, 3 de janeiro de 2006
O cantochão de São Jeferson - Jayme Copstein
Enfim, alguém das entranhas do Congresso, porém de indiscutível idoneidade moral, denuncia também o que há muito tempo temos feito aqui: um acordo para abafar o escândalo do mensalão e assegurar impunidade aos corruptos.
É o deputado Osmar Serraglio, impecável relator da CPI dos Correios, que alerta a Nação sobre o que chama de “engenharia”, no caso eufemismo e rima perfeita de patifaria.
O deputado Serraglio preserva uma linguagem contida, com toda a certeza para não se expor a um processo de cassação por denunciar a bandalheira. É só o que falta, dentro do museu de horrores em que se transformou a Câmara Federal, punir a decência. Por isso, talvez não tenha falado também do projeto mais canalha da história parlamentar brasileira: a anistia dos mensalistas cassados.
A imprensa repete o pecado anterior do mensalão, de cuja existência todos sabiam nos corredores do Congresso e só veio a furo porque Roberto Jeferson, desentendido com seus parceiros, decidiu jogar o esterco no ventilador. Ninguém fala que o maremoto de Jeferson, refluiu após ele ameaçar Zé Dirceu em público com os seus “mais baixo instintos”. Cobriu a cabeça de cinzas e o perdoou franciscanamente. Nos corredores, o coro está entoando o cantochão: “É dando que se recebe”.
É o deputado Osmar Serraglio, impecável relator da CPI dos Correios, que alerta a Nação sobre o que chama de “engenharia”, no caso eufemismo e rima perfeita de patifaria.
O deputado Serraglio preserva uma linguagem contida, com toda a certeza para não se expor a um processo de cassação por denunciar a bandalheira. É só o que falta, dentro do museu de horrores em que se transformou a Câmara Federal, punir a decência. Por isso, talvez não tenha falado também do projeto mais canalha da história parlamentar brasileira: a anistia dos mensalistas cassados.
A imprensa repete o pecado anterior do mensalão, de cuja existência todos sabiam nos corredores do Congresso e só veio a furo porque Roberto Jeferson, desentendido com seus parceiros, decidiu jogar o esterco no ventilador. Ninguém fala que o maremoto de Jeferson, refluiu após ele ameaçar Zé Dirceu em público com os seus “mais baixo instintos”. Cobriu a cabeça de cinzas e o perdoou franciscanamente. Nos corredores, o coro está entoando o cantochão: “É dando que se recebe”.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2006
Em memória de Clóvis Ott - Jayme Copstein
Recebo surpreendido e com imensa tristeza a notícia da morte de Clóvis Ott, maluco genial que vi nascer para o jornalismo, no velho celeiro chamado Diário de Notícias. Desde o início, me pareceu uma espécie nova de Peter Pan, com visão de adulto e coração de criança. Isso o tornava combinação feliz, não muito comum, de talento fora de bitola e decência.
O texto perfeito o trouxe para a jovem Folha da Manhã, da velha Caldas Junior, onde eu trabalhava no Correio do Povo. Em certa manhã, às vésperas de se encerrar o prazo das inscrições para o extinto Prêmio Visconde de Cayru, que destacava reportagens sobre o comércio, li uma reportagem sua, maravilhosa na abordagem humana dos problemas enfrentados pelos pescadores artesanais do Guaíba.
Como se recusasse a inscrever o trabalho no concurso, eu o fiz à sua revelia, e ele só aceitou o fato porque consumado e porque a “ursada” tinha sido obra minha. Quando o resultado saiu, Clóvis era o vencedor e eu, o segundo colocado.
Corri à redação da Folha da Manhã para abraçá-lo e ao mesmo tempo me vingar da sua teimosia, dizendo-lhe: “Tu não entendes nada de jornal, otário!”
Ele não estava. Foi Zeca Vieira da Cunha, outro grande jornalista daquela geração, hoje no leme da revista eletrônica Coletiva.Net, que me informou: “Ele saiu com o Alemão!”
O alemão era Floriano Corrêa, chefe de reportagem e paizão de toda aquela gurizada que começava. Fui encontrar os dois no bar do edifício vizinho, o Clóvis Ott zangado e chorando. Zangado porque achava que não merecia o prêmio, chorando porque tinha me vencido, eu que o inscrevera.
Foi preciso proferir a frase mágica – “Tu não entendes nada de jornal, otário!” – para que todos caíssemos na gargalhada.
Depois disso, muito pouco encontrei Clóvis. Foi para a Europa, fez nome na publicidade, notabilizou-se como correspondente internacional, destacou-se na cobertura da Revolução dos Cravos que devolveu a democracia a Portugal.
Voltou para Porto Alegre nos anos oitenta, mas a cidade já tinha inchado e as muitas passarelas e viadutos haviam terminado com as encruzilhadas mais importantes. As pessoas passam lá cima ou aqui em baixo, como se ocupassem o mesmo lugar no espaço e o pior – sem se enxergar.
Só que o tempo ou a geografia não diminuem nem a admiração nem o afeto que a gente nutre por criaturas como Clóvis Ott. Ele pertence àquela legião dos que sobrevivem para sempre na ternura e na beleza que semeiam no coração de seus semelhantes.
O texto perfeito o trouxe para a jovem Folha da Manhã, da velha Caldas Junior, onde eu trabalhava no Correio do Povo. Em certa manhã, às vésperas de se encerrar o prazo das inscrições para o extinto Prêmio Visconde de Cayru, que destacava reportagens sobre o comércio, li uma reportagem sua, maravilhosa na abordagem humana dos problemas enfrentados pelos pescadores artesanais do Guaíba.
Como se recusasse a inscrever o trabalho no concurso, eu o fiz à sua revelia, e ele só aceitou o fato porque consumado e porque a “ursada” tinha sido obra minha. Quando o resultado saiu, Clóvis era o vencedor e eu, o segundo colocado.
Corri à redação da Folha da Manhã para abraçá-lo e ao mesmo tempo me vingar da sua teimosia, dizendo-lhe: “Tu não entendes nada de jornal, otário!”
Ele não estava. Foi Zeca Vieira da Cunha, outro grande jornalista daquela geração, hoje no leme da revista eletrônica Coletiva.Net, que me informou: “Ele saiu com o Alemão!”
O alemão era Floriano Corrêa, chefe de reportagem e paizão de toda aquela gurizada que começava. Fui encontrar os dois no bar do edifício vizinho, o Clóvis Ott zangado e chorando. Zangado porque achava que não merecia o prêmio, chorando porque tinha me vencido, eu que o inscrevera.
Foi preciso proferir a frase mágica – “Tu não entendes nada de jornal, otário!” – para que todos caíssemos na gargalhada.
Depois disso, muito pouco encontrei Clóvis. Foi para a Europa, fez nome na publicidade, notabilizou-se como correspondente internacional, destacou-se na cobertura da Revolução dos Cravos que devolveu a democracia a Portugal.
Voltou para Porto Alegre nos anos oitenta, mas a cidade já tinha inchado e as muitas passarelas e viadutos haviam terminado com as encruzilhadas mais importantes. As pessoas passam lá cima ou aqui em baixo, como se ocupassem o mesmo lugar no espaço e o pior – sem se enxergar.
Só que o tempo ou a geografia não diminuem nem a admiração nem o afeto que a gente nutre por criaturas como Clóvis Ott. Ele pertence àquela legião dos que sobrevivem para sempre na ternura e na beleza que semeiam no coração de seus semelhantes.
O pau e a cobra - Jayme Copstein
Raul Pont, secretário-geral do PT, tem razão, em boa parte, quando cobra de Luiz Inácio Lula da Silva o nome dos bois. O presidente imola o seu próprio partido para se eximir da responsabilidade pelo mensalão, aparente rótulo novo de velhas patifarias, na verdade, epitáfio de uma utopia.
O PT, ao contrário do gênero humano, nasceu com a virtude original para purificar a Terra e devolver ao homem o paraíso perdido. Mas o roteiro parece ter sido dirigido por algum maluco que, por originalidade, filmasse de trás para diante. Das entranhas de tanta pureza e bem-aventurança, desprendeu-se e foi vomitado um fruto do saber que agora jaz apodrecido na sarjeta.
Quem pecou?
“O PT cometeu um erro incomensurável, de difícil reparação", acusa Lula.
Pont retruca: “Ele ajudaria mais de se dissesse quem o traiu. Uma parte significativa do partido nunca aceitou as coligações e essa política de alianças. Além disso, as pessoas envolvidas eram defensoras do governo e asseguram que tudo foi feito por uma causa maior, o governo Lula."
O que se cobra de todos, de Raul Pont, de Lula, do próprio PT, é a impropriedade do provérbio “matar a cobra e mostrar o pau”.
O importante é mostrar a cobra morta. Mas esta, apesar de não ter braços nem pernas, arpoou Lula pelas costas.
O PT, ao contrário do gênero humano, nasceu com a virtude original para purificar a Terra e devolver ao homem o paraíso perdido. Mas o roteiro parece ter sido dirigido por algum maluco que, por originalidade, filmasse de trás para diante. Das entranhas de tanta pureza e bem-aventurança, desprendeu-se e foi vomitado um fruto do saber que agora jaz apodrecido na sarjeta.
Quem pecou?
“O PT cometeu um erro incomensurável, de difícil reparação", acusa Lula.
Pont retruca: “Ele ajudaria mais de se dissesse quem o traiu. Uma parte significativa do partido nunca aceitou as coligações e essa política de alianças. Além disso, as pessoas envolvidas eram defensoras do governo e asseguram que tudo foi feito por uma causa maior, o governo Lula."
O que se cobra de todos, de Raul Pont, de Lula, do próprio PT, é a impropriedade do provérbio “matar a cobra e mostrar o pau”.
O importante é mostrar a cobra morta. Mas esta, apesar de não ter braços nem pernas, arpoou Lula pelas costas.
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