quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A cassação do “H” - Jayme Copstein

O jornalista Sérgio Reis, sugere acréscimos à afirmação ( em “Imagina, Cara!”, coluna de ontem) de que o regime militar cassou Cândido Norberto para impedir a eleição de Ruy Cirne Lima ao Governo do Estado: “Cândido foi cassado para que ‘fosse eleito’ governador o Peracchi Barcelos”.

Sérgio tem razão no acréscimo porque delimita a fronteira em que o Movimento de 1964 – um contragolpe, como defendeu o historiador Hélio Silva – evoluiu para uma reles ditadura.

Ninguém podia levantar nada contra a integridade e a capacidade de Cirne Lima, jurista, professor universitário, escritor e jornalista, mas o regime mudara e impusera regras eleitorais estritas, para poder “nomear” a seu bel-prazer os governadores estaduais. No Rio Grande do Sul, o quinhão estava destinado a Walter Peracchi Barcellos, coronel da Brigada Militar, homem da “Revolução”.

Com toda a certeza, Cirne Lima seria o vencedor, não só com os votos da oposição, maioria na Assembléia, mas também com os de vários deputados governistas. Era uma questão de currículos e Peracchi não desfrutava de simpatia nem mesmo entre seus correligionários, o que, aliás, lhe valera fragorosa derrota para Leonel Brizola, disputando a mesma governança, alguns anos antes.

A cassação de Cândido e de outros deputados permitiu a Peracchi Barcellos governar o Rio Grande do Sul, mas castrou a política brasileira. Mem de Sá, então ministro da Justiça, outra grande figura da vida pública, deixou o governo em protesto. Raul Pilla renunciou ao mandato de deputado federal com memorável discurso de despedida da vida pública que deveria ser oferecido aos jovens em nossas escolas como uma cartilha de altivez e coragem.

A mesma altivez e a mesma coragem faltaram ao parlamento brasileiro e a toda a oposição para se autodissolver e retirar a legitimidade ao regime. Teria sido bem mais eficaz para derrubá-lo que fazer correr o sangue generoso da juventude, com o único objetivo de substituir uma ditadura por outra.

O Brasil nunca mais foi o mesmo depois daquele dia. Os grandes personagens, que faziam a História do país com H maiúsculo, saíram de cena, abrindo-se espaço para a fauna de aventureiros, oportunistas e aproveitadores, sobre os quais é escusado qualquer comentário porque é de todos conhecida.

Não terá sido este o maior crime que se cometeu contra a nacionalidade?

Imagina, Cara! - Jayme Copstein

No início dos anos 50, quando faleceu Antônio Amabile, o Piratini, Cândido Norberto prestou-lhe comovedora despedida. Substituiu “Pensando em voz alta”, seu contundente comentário diário na Rádio Gaúcha, por um amoroso recado ao amigo, contando “o boato que corria pela cidade”.

“Imagina, ‘Gringo’” – começava o Cândido – disseram que tu morreste”... E descreveu os funerais, com os discursos, as lágrimas da família, dos amigos, e contou da solitária rosa, depositada por uma velhinha da Casa do Artista Rio-Grandense, fundada por Piratini. E concluiu: “Imagina, Gringo, disseram que tu morreste, mas eles não sabem que pessoas como tu não morrem jamais. Vivem para sempre no coração da gente”.

Já naquela época, com muito futuro ainda a percorrer – não completara sequer os 30 anos de idade – Cândido já inscrevera o nome na história do rádio do Rio Grande do Sul, pelo pioneirismo, tanto o jornalístico do “Pensando em voz alta” como por introduzir na Rádio Gaúcha a primeira equipe de redatores profissionais para escrever a programação e a publicidade.

As agências de publicidade e os cursos de comunicação social decretaram a obsolescência daqueles “produtores”, como eram chamados, mas a visão de que o veículo necessitava de aprimoramento intelectual para cumprir o seu papel tem sua assinatura na primeira página.

Logo em seguida, Cândido ingressou na política, e de novo pôs a sua marca, na defesa da cidadania, levando para o mandato de deputado estadual a inteligência contundente, a sinceridade de seus propósitos e uma agilidade mental que jamais se viu em outro político gaúcho. Incontáveis e notáveis os seus apartes nos desmascaramento de hipocrisias, como foi por ocasião do assassinato de quatro manifestantes comunistas, em manifestação de 1º de Maio, na cidade do Rio Grande.

"A Polícia, em legítima defesa, atirou para o ar”– defendia o líder do governo na Assembléia. “Neste momento quatro trabalhadores passaram voando...”, atalhou Cândido, fazendo o líder calar e sentar, após resmungos ininteligíveis.

A trajetória política de Cândido interrompeu-se três mandatos depois, quando o regime de 1964 evoluiu para uma reles ditadura, através de golpes sucessivos, e era preciso cassar deputados para impedir a eleição de Ruy Cirne Lima ao Governo do Estado.

Ainda que isso o tivesse afetado pela impossibilidade de reagir, voltou ao rádio com o mesmo desassombro e de novo deixou a sua marca, criando “Sala de Redação”, a semente do radiojornalismo de qualidade que o Rio Grande do Sul ostenta atualmente.

Por essa época,um assaltante que lhe apontou o revólver, quando parou no sinal em uma esquina da Avenida Ipiranga, deu-lhe o melhor atestado de probidade e honradez que alguém possa obter. Ao reconhecer Cândido, fez um gesto ao comparsa, do outro lado do carro, e disse: “Para tudo! Este é cidadão!” E foram embora os dois

Todas essas coisas, por mim sabidas e testemunhadas – fui seu amigo, o primeiro redator daquela equipe de produtores e emissário de Alberto André para lhe levar a solidariedade da Associação Riograndense de Imprensa quando foi cassado – , passaram-me pela cabeça quando li ontem de manhã, a notícia do seu falecimento. E não acreditei.

Imagina, Cândido. Disseram que tu morreste, mas eles não sabem que pessoas como tu não morrem jamais. Vivem para sempre no coração da gente.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O dono da bola - Jayme Copstein

O militante da esquerda fundamentalista, Emir Sader, confessou-se decepcionado com o resultado do Fórum Social Mundial, recém terminado no Pará:

“Onde estão as massas nas ruas, mobilizadas pelas ONGs?” – perguntou para expressar seu desencanto.

No mesmo lugar em que estavam quando ele anunciou, em 2005, a excomunhão de Porto Alegre da congregação do politicamente correto, porque os eleitores livremente tinham elegido um prefeito de outras convicções ideológicas, não afinadas com as do sr. Emir Sader.

Desde a primeira realização em 2001, a cidade abrira os braços amorosamente aos participantes do Fórum, imaginado pelo empresário Oded Grajew, empresário bem-sucedido, sensível às carências da vida e aos descompassos do mundo, como alternativa a Davos. “Objetivo – palavras textuais de Grajew – “criar uma nova cultura política quem não seja a antiga, na qual um punhado de pessoas dirige os rumos e determina os conteúdos da ação política”.

Devia ser assim, mas como todas as coisas bem-sucedidas na vida acabam tendo uma enxurrada de pais, Emir Sader dele se adonou e já durante a campanha eleitoral que antecedeu a escolha de José Fogaça para a Prefeitura, ameaçava retirá-lo de Porto Alegre se o eleitor não reconduzisse mais uma vez o candidato petista ao governo municipal. Ou seja, “um punhado de pessoas dirigindo os rumos e mais que conteúdos da ação política, determinando a vontade do eleitor.

Não vou afirmar que eleitor porto-alegrense seja birrento e por isso desafiou Emir Sader. Mais provável é ter percebido que, ao contrário do apregoado pelo Partido dos Trabalhadores e por facções de esquerda, o Fórum não era uma conquista da cidade e da cidadania. Não passava de mero espetáculo ideológico, algo como uma espécie de rodeio de vaqueiros, de propriedade de um grupo identificado mais por sua idiossincrasias do que por suas coerências, só emprestado aos amigos do peito e aos correligionários.

Não fosse assim, Emir Sader não se atreveria a ameaçar o eleitor porto-alegrense. O fato é que, saindo de Porto Alegre, o Fórum Social Mundial nunca mais foi o mesmo. Andou de Seca a Meca, dividido e subdividido por dezenas de sedes e até serviu de palanque para o demagogo Hugo Chaves.

No ano passado, não pôde ser realizado por falta de recursos e este de Belém – palavras do próprio Sader – foi decepcionante.

No contraponto, Porto Alegre reelegeu o prefeito José Fogaça e vai muito bem obrigado. Não serei descortês a ponto de dizer que ninguém sentiu a falta do Fórum Social Mundial. A cidade se propõe a abrigá-lo de novo, sem pedir atestado de ideologia, como o fazem as reles ditaduras.

Professor Enro Loll e a nova ortografia - Jayme Copstein

Quatro professores de Direito Constitucional – Angola, Brasil, Guiné-Bissau e Portugal, respectivamente, em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades – publicaram artigo na Folha de São Paulo, revelando virtudes insuspeitadas na recente reforma ortográfica da língua portuguesa.

Segundo os mestres, Camões, Machado e Luandino estão imunes à nova ortografia, mas as Constituições, não – terão de ser "’recompostas’ em nova ortografia portuguesa, adaptando-se às normas legais que, em cada país, incorporaram o acordo comum”.

Enfim, a luz no fim do túnel – e nós, há séculos, sem perceber algo tão simples como resolver todos os problemas constitucionais fazendo reformas ortográficas.

Os mestres descobriram algum mau comportamento do Padre Vieira, Alexandre Herculano, Castilhos, Camilo Castello Branco para excluí-los do rol dos intocáveis, mas foram peremptórios: “(...) a supremacia da Constituição, ‘cantada em verso e prosa’, se curvará às determinações de uma lei quanto à sua própria grafia”.

Perguntado a respeito, o professor Enro Loll, reconhecida autoridade mundial em questões lingüístico-constitucionais, opinou que se trata de uma questão de “assentos”.

– Não serão “acentos?” – perguntou-se ao professor.

– Não – retrucou o professor Enro Loll – É assento mesmo, de acordo com o vínculo por mim descoberto entre o fundilho das cuecas e o cós das calças,

sábado, 31 de janeiro de 2009

As mudanças do mundo - Jayme Copstein

Naqueles tempos de preconceito, “seu” Tajuba não levava ninguém de compadre, menos ainda homem cheio de não-me-toques. “Macho que não é macho, nem devia ter nascido”, pregava aos quatro ventos.

Quem não estava por esses conformes era a mulher, dona Sinhá. Depois que a tevê trouxe as novelas pra dentro de casa, começou a ter opinião, a discordar: “Você fica atracado com as vacas, não presta atenção no mundo. Tudo mudou.”

Andavam os dois nesses desconformes, quando um dia o Ruirinha voltou à cidade. Tinha sido escorraçado a rabo de tatu, pra deixar de frescura e de envergonhar São João dos Milagres, cidade de machos. Seu Tajuba foi quem mais bateu.

Choramingando, enxugando as lágrimas com lencinho de renda, Ruirinha jurou: “Um dia volto, todo mundo vai beijar minha mão!” Tocou-se pro Rio de Janeiro, rolou mundo, acabou costureiro famoso em Paris, onde casou com um ex-segurança da princesa de Mônaco. Quando desembarcou em São João dos Milagres, fez de propósito: cheio de ademanes e penduricalhos, trajava uma pilcha estilizada em seda brilhante rosa choque com aplicações verde malva.

Seu Tajuba ao ver aquilo, ficou possesso. Queria dar tiro: “A gente aqui faz força pra mostrar que é macho, esse cara envergonha a gente lá fora.” Dona Sinhá foi quem o conteve: “Tajuba, esse cara é famoso em todo o mundo. Ele faz vestido até pra rainha da Inglaterra!”

Seu Tajuba não queria acreditar: “Pra rainha da Inglaterra?!”, repetiu. Só quando ela lhe esfregou nas fuças a revista Caras, ele se rendeu: “Não me diga!... “

Tirou uma baforada comprida do palheiro, refletiu um pedacinho sobre as mudanças do mundo: “Quem diria... o Ruirinha, que a gente corria de rebenque pr’a deixá de se fresquear... “
Inflou o peito, botou no rosto um sorriso de orelha a orelha e soltou de puro orgulho: “Mas já é um carreiraço pr’um fresco!...

Ato contínuo, entrou na fila para pegar autógrafo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O recado - Jayme Copstein

Brasileiras e brasileiros, rejubilai-vos!... Zé Sarney Primeiro e Único decidiu nos salvar da crise mundial e candidatou-se à presidência do Senado. Comovedor o seu despreendimento, deixando de pensar “no próprio bem-estar para prestar um serviço país” (palavras textuais).

Zé Sarney tem no currículo uma inflação de “miles” por cento, o que, com toda a certeza, o credencia a tão nobre e relevante missão. Jamais houve governo como o dele na história deste país, como poderia ter dito Lula também Primeiro e Único, mas não disse porque como todos sabemos o inimigo de ontem é o aliado de hoje e incógnita de amanhã.

Nem mesmo Zé Sarney leva a sério suas próprias palavras, mas, por mais que estrile seu aliado, o também candidato Tião Vianna do PT, com toda a certeza será eleito.

Ao se tornar o terceiro na linha da sucessão á presidência da República, Sarney faz duas apostas: em que a crise ao atingir o auge possa derrubar Lula e nas dificuldades do vice-presidente José Alencar assumir o Planalto na emergência.

Além das apostas, manda recado a Lula sobre 2010 – apoio do PMDB só sob certas condições. Mesmo com luvas de pelica, o recado é duro – a candidatura de Tião Vianna deve ser retirada:

"Não queria que houvesse disputa. Muito melhor se tivéssemos uma candidatura de unidade."

Vianna reagiu com veemência: "Ele cometeu mais uma indelicadeza ao sugerir que eu renunciasse.”

Não entendeu o espírito da coisa. Lula sabe do que Sarney está falando. Na reeleição, quando percebeu que sua popularidade não se traduzia nas urnas e ele não venceu no primeiro turno, teve de sair correndo com um simbólico saco de cinzas na cabeça para conseguir transferir 10 milhões de votos da conta de Alkimin para a dele. Ou entra na cabeça de alguém que, sem nenhuma outra causa aparente, meros discursos fazem dez milhões de eleitores mudar repentinamente de opinião?

As batatas de Evo

O ministro Edison Lobão diz que Brasil não aceita alterar tratado de Itaipu. Como ele é por demais conhecido pela firmeza de suas afirmações, escrevam: o tratado vai ser alterado e o Brasil ainda acabará pagando alguma indenização, quem sabe para compensar Madame Lynch, a amante de Solano Lopes, pela perda da virgindade.

Não é maledicência: recentemente o ministro Lobão garantiu que o Brasil diminuiria a compra de gás da Bolívia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma visitinha de cortesia ao companheiro Evo Morales e elevou a quantidade comprada.

Faz sentido: com o aumento das exportações de batata doce para o país hermano, a companheirada passou a produzir mais gás.

Temos de indenizá-los, sim senhor. Nada como um estadista na chefia do governo.

O espírito da coisa - Jayme Copstein

Não sei quando a burocracia nasceu no Brasil. A mania de culpar os portugueses por tudo – mesmo 187 anos depois que foram embora – diz que a prebenda se originou na necessidade de Lisboa criar empregos para seus apaniguados.

Seja lá como for, permitam-me uma gargalhada diante da notícia, dando conta que o Ministério do Planejamento preparou pacote jurídico para abolir a exigência do reconhecimento de firmas e de documentos emitidos por órgãos públicos.

Por que rir quando devia aplaudir? É a terceira vez que leio esta mesma notícia nos últimos 40 anos, e ela sempre vem com o mesmo penachinho: a não ser nos casos previstos em lei. Como legislação no Brasil é um cipoal de repetições e contradições – há dúzias de leis dizendo a mesma coisa e outras tantas dúzias de leis dizendo o contrário, quem consegue saber das exigências ou da sua falta?

A memória me remete para uma conversa com o economista João Paulo Reis Velloso, no bar da Associação Riograndense de Imprensa em 1969, quando ele era secretário do Ministério do Planejamento. O titular, Hélio Beltrão havia baixado legislação para desburocratizar a administração pública, e Reis Velloso surpreendeu dois funcionários do próprio Ministério, trabalhando em sala de um dos andares superiores, sentados em mesas uma defronte da outra, cumprindo um ritual absurdo: um requerimento subia do Protocolo todos aqueles andares para o primeiro funcionário, que despachava: “À Seção Tal para autorizar seja processado.”

O requerimento era então devolvido ao Protocolo. Descia todos aqueles andares e subia de novo à mesma sala porque a Seção Tal era exatamente a mesa do segundo funcionário, cuja única atribuição era escrever: “De acordo. Autorizo seja processado”. E devolvia ao Protocolo para seguir a via crúcis. Como Beltrão estivesse viajando, Reis Velloso assumira o Ministério e determinou que o primeiro funcionário passasse logo o processo ao colega, o recebesse de volta no mesmo instante e remetesse logo ao Protocolo.

Os dois burocratas alegaram quer não podiam fazer isso. Perguntados por que, atrapalharam-se na resposta e finalmente disseram: “A gente sempre fez assim!”. Pois, de agora em diante, vão fazer diferente, – lhes ordenou Reis Velloso, que em seguida foi para seu gabinete.

Não se passaram três horas, e os dois burocratas lhe apresentaram um decreto do tempo do Império, esmiuçando o ritual. Particularidade: naquele tempo, as duas seções ficavam em prédios diferentes, no Rio de Janeiro. Com a mudança para Brasília, ocuparam a mesma sala, mas o decreto imperial não foi revogado. Portanto, cumpra-se a lei.

É esse o espírito da coisa.

No país da impunidade - Jayme Copstein

Leitores reclamam de uma provedora de Internet: sem mais nem menos, as redes sem fio de seus clientes deixam de funcionar. Técnicos no assunto dizem que é possível e que a operadora faz de propósito porque deseja vender manutenção aos seus usuários.

Se isso é verdadeiro, não será nada difícil documentar a intrujice e pôr a boca no trombone. O PROCON municipal e a própria Anatel do Rio Grande do Sul estão aí mesmo para tomar providências. De qualquer forma, como não há apenas um queixoso, mas dezenas deles, onde há fumaça, tem fogo...

O fato é...

...,que esse “se pegar, pegou” é resultado do sentimento de impunidade amplo, geral e irrestrito que encharca o país, graças ao código de porta de cadeia gestado pelo bom-mocismo calhorda. Já houve caso de ladrão preso três vezes no mesmo dia e, com tanta insistente, acabou convencendo as autoridades que realmente desejava hospedar-se atrás das grades.

Em Taquara, porém, porque não gostou de o dono de uma casa ter reclamado que sua “namorada” de 17 anos invadiu o pátio para consumir crack, um marginal simplesmente baleou-o no peito. Para um corruptor de menores, portando armas, já tem código penal de sobra para trancá-lo nas grades.

No Vale do Taquari, aqui no Rio Grande do Sul, não há vagas nas prisões. Há decênios não se constroem cadeias novas. Não houve, ao longo de todos esses anos, nenhuma reivindicação mais veemente nesse sentido. A autoridade vê-se obrigada a liberar criminosos presos em flagrante que voltarão a delinqüir porque sentem que não acontece nada.

Porém...

... sequer autoridades respeitam a lei. Um inspetor da Polícia Civil deu origem a um confronto com a Polícia Rodoviária Federal que poderia terminar em tragédia. O inspetor decidiu “furar” o pedágio de Gravataí, aproveitando a cancela aberta para o carro que o antecedia. Interceptado pela PRF, tentou fugir da ordem de prisão, transformando a freeway em pista de fórmula um, em uma corrida que só terminou na frente da 1ª DP.

O episódio, que incluiu cenas de pugilato foi relatado pelos jornais com o curioso acréscimo de que a Polícia Civil queixou-se da truculência da Polícia Rodoviária Federal.
Nada como um dia depois do outro.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Os trapalhões - Jayme Copstein

Não fossem os quatro cadáveres que Cesare Battisti ostenta em seu currículo, o episódio da concessão de asilo pelo nosso ministro da Justiça não passaria de ópera bufa. Segundo noticiaram os jornais brasileiros, atribuindo a informação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi o próprio presidente da França, Nicolas Sarkozy quem intercedeu em favor do terrorista italiano.

Como vivemos em uma democracia onde cada um, afora opinião, tem direito à sua própria versão, Tarso Genro, em entrevista ao jornal Zero Hora, revelou que teria sido Carla Bruni, a reluzente mulher de Sarkozi, a autora da intercessão. Logo em seguida, com o encanto pessoal e o senso de oportunidade que lhe são peculiares, o senador Eduardo Suplicy acrescentou ponto ao conto: revelou ao jornal Corriere della Sera ter Carla Bruni se interessado pelo assunto por ser amiga da escritora francesa Fred Vargas, ardorosa defensora de Basttiti na França.

Os “gringos” montaram em um porco e desceram a lenha em Carla Bruni. Ela havia criticado o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, dizendo que seu governo fizera com que ela se orgulhasse de ter deixado de ser italiana. Levou o troco do subsecretário de Relações Exteriores da Itália: “Estamos orgulhosos de que ela não seja mais italiana e que a França tenha acolhido uma senhora como ela”.

Pois agora, Carla Bruni, em entrevista à RAI, desmentiu o presidente Lula, o ministro Tarso Genro e o senador Suplicy, dizendo que não vê “como alguém possa pensar que a mulher de um presidente possa falar dessas coisas com o presidente de outra Nação”.

Não se sabe como anda a audiência do Big Brother 9, mas se despencou, não atribuam à crise mundial. É que a concorrência anda feroz...

domingo, 25 de janeiro de 2009

O joio e o trigo - Jayme Copstein

Anda pela Internet um audiovisual, atribuído a um mexicano, com as mesmas queixas que temos do Governo, do Congresso e do Judiciário no Brasil.

O meu espanhol, mal aprendido em um ano de colegial e engordado de ouvido com o “castejano” de turistas e fronteiriços, não é dos melhores. Não consegue distinguir se o texto foi gravado por um mexicano de verdade ou se tem parentesco com o inglês macarrônico, inventado em besteirol de anexação da Amazônia aos mapas dos colegiais norte-americanos, como já circulou há algum tempo na Internet.

Se o texto é autêntico ou não, se coletou ou não as nossas frustrações com intenções obscuras, vale, porém, para demonstrar como a América Latina é vítima do seu próprio atraso e vulnerável a qualquer experimento político bolado pela intelectualha para demonstrar gênio e assegurar a posse da verdade.

Menos atenção, com toda certeza, chamou o texto do professor Naércio Menezes Filho, diretor de pesquisas do Instituto Futuro Brasil, “Como ensinar nossas crianças a ler”, publicado por Valor Econômico em 31 de janeiro e disponível também na Internet, sem que alguém se digne a incluí-lo nas suas listas.

Em países como os da América Latina, se generalizarmos as mazelas apontadas pelos audiovisual supostamente mexicano – a nós, com toda a certeza se aplicam – não se pode esperar coisa melhor pelas deficiências da educação. Basta dizer que, no Brasil, acabaram soando como um traque as sonoridades das estatísticas que mostravam quase a erradicação do analfabetismo: mais de 60% dos supostos alfabetizados não conseguem entender o que lêem – apenas decifram o som das sílabas.

O artigo do professor Naércio relata as primeiras conclusões do projeto Geres (http://www.geres.ufmg.br), que observa cerca de 27 mil crianças de mais de 300 escolas desde 2005 em cinco cidades brasileiras (Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Campo Grande e Campinas): passar e corrigir lições de casa funciona, o aumento dos recursos gastos não melhora o ensino e não há diferença de aprendizado entre alunos de classes com mais de 33 alunos ou com menos de 16. A diferença entre professores bons e ruins não depende de terem curso universitário (público ou privado), ou apenas ensino médio: os melhores são os que têm entre 5 e 15 anos de magistério. O que faz sentir saudades dos velhos cursos normais, onde se formaram legiões de excelentes mestres.

Entre as constatações importantes está a de “alunos que estudam com filhos de pais mais escolarizados e ricos aprendem a ler mais rapidamente. Vale notar que isto é mais importante do que o nível socioeconômico do próprio aluno. Isto acontece porque os pais mais ricos pressionam mais as escolas quando os professores não estão ensinando como deveriam e porque fica mais fácil aprender a ler quando seus colegas de classe têm mais facilidade”, escreve o professor Naércio.

O que desmascara o crime contra a nacionalidade cometido nas salas de aula, por quem politiza a educação, jogando brasileiros contra brasileiros, impedindo a sua integração cívica e reduzindo-os à mera de condição de militantes, em lugar de formar cidadãos.