quarta-feira, 9 de junho de 2010

A dança dos famosos – Carlos Brickmann (*)

A partir de agora, entretanto, a campanha esfria um pouco: é a hora da Copa. No fim do mês, vem a festa junina promovida pelo casal Lula-Mariza Letícia, na Granja do Torto. A festa dá pouco trabalho: cada convidado leva um prato típico. E, em Brasília, formar a quadrilha não chega a ser muito difícil.

Foi constrangedor: o candidato José Serra, mal-humorado, de gênio difícil, impaciente, precisou dançar algo chamado "Ah, Moleque", para atender a pedido da humorista Sabrina Sato - a mesma que fez o senador Eduardo Suplicy vestir uma cueca vermelha por cima do terno para imitar o Super-Homem.

Foi constrangedor: a candidata Dilma Rousseff, exausta de tantos compromissos de campanha - sabatina na Folha Serrana de Xiririca do Alto, palestra na União dos Plantadores de Frutas Exóticas, inauguração da ideia de construção de uma maquete da pedra fundamental do Obelisco Bolivariano de Carreiral - trocou o nome de uma de suas principais aliadas, e chamou-a de Márcia Suplicy.

Estamos chegando ao ponto principal de um longo processo, em que cada corrente política do país escolheu uma pessoa de prestígio e capacidade para representá-la; uma dessas pessoas receberá o encargo de dirigir um país cheio de problemas, mas com enorme potencial, nos próximos quatro anos. E essas pessoas, escolhidas entre as notáveis, entre as melhores de cada corrente política, passam a representar papéis que para elas nada significam, apenas para mostrar que também podem ser ridículos.

A campanha, uma caminhada pelo país, passa a não ter utilidade para os candidatos: em vez de assistir pessoalmente ao dia a dia e aos problemas da população, passam a preparar-se para resistir a maratonas antinaturais, a comer coisas exóticas (e malfeitas) a exibir seus parcos dotes humorísticos, a dançar músicas que em situações normais jamais ouviriam. Não é por aí.

Avancê!
A partir de agora, entretanto, a campanha esfria um pouco: é a hora da Copa. No fim do mês, vem a festa junina promovida pelo casal Lula-Mariza Letícia, na Granja do Torto. A festa dá pouco trabalho: cada convidado leva um prato típico. E, em Brasília, formar a quadrilha não chega a ser muito difícil.

Ah, Brasília!

Lembra do escândalo do Senado (um deles: aquele do excesso de funcionários)? Pois é, deu demissões, valeu a contratação de consultores para planejar o enxugamento da máquina, etc., etc.

Como o tempo já passou, tudo começou de novo: o Senado acaba de contratar empresas que terceirizarão o serviço de arrumação, cozinha, copa, e oferecerão garçons, jornalistas (ou melhor, "pessoal de comunicação social"), além de cuidar de serviços administrativos. Em bom português, são R$ 72 milhões por ano a mais.

Quase um milhão de gasto extra, diretamente do bolso de cada um dos leitores para cada um dos 81 senadores.

Ah, sim, as despesas novas não ficam só nisso: a mesma consultoria que fez o plano anterior de redução de gastos de pessoal foi contratada de novo, com o mesmo objetivo, naturalmente cobrando de novo, com a devida correção.

Fogo amigo

Como não disse Geraldo Vandré, é só para não dizer que não falamos do dossiê. Tudo indica que José Serra, embora seja o protagonista do dossiê, não seria seu alvo: o alvo era a própria equipe que produziu o dossiê, talvez induzida por inimigos de dentro do partido que, mais tarde, alegaram que a iniciativa era inaceitável, condenável e ineficaz, e que seus produtores deveriam cair fora da campanha. Vitória total: os produtores caíram fora. E o chefe de sua ala, Fernando Pimentel, candidato ao Senado por Minas, também balança na campanha: deve receber passe livre para dedicar-se só à sua candidatura. Neste momento, a equipe que toca o barco de Dilma é a que gira em torno de Marta Suplicy.

Fogo inimigo

Quanto a Serra, aparentemente aproveitou a oportunidade: já que havia um dossiê contra ele, denunciou-o, de um lado para colocar-se como vítima, de outro para desqualificá-lo, se trouxesse novidades. O tema continuará em debate por mais algum tempo, até que a Copa o esfrie de vez. Depois da Copa, se alguém quiser reavivar o debate, terá de apresentar novos fatos - talvez o lançamento do livro que engloba todas as acusações contra Serra e parentes.

A greve, sim e não

O STJ, Superior Tribunal de Justiça, determinou que a Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário Federal e Ministério Público da União mantenham em atividade, durante sua greve, pelo menos 60% dos trabalhadores. Caso a determinação não seja cumprida, haverá multa de R$ 100 mil por dia de desobediência.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas até agora os sindicatos que não cumpriram decisões judiciais conseguiram evitar o pagamento das multas. Se o próprio presidente da República debocha das multas que a Justiça lhe impôs, que esperar de um sindicato numa hora de radicalização?

(*) Carlos Brickmann, colunista do Observatório da Imprensa, do Diário do Grande ABC, antigo editor-chefe da Folha de São Paulo, é dono de invejável currículo no jornalismo brasileiro

Bibi e Israel - Nahum Sirotsky, de Tel Aviv. (*)

Bibi Netanyahu é o homem forte no atual quadro político de Israel. Não existe nenhuma outra liderança com a experiência dele. Tzipi Livni que assumiu a liderança do Kadima em eleições primárias intrapartidárias, não tem nem o carisma nem currículo para competir com ele.

O Kadima, partido criado para ocupar o centro político, perdeu sua oportunidade com a doença do único líder ativo, com origens nas lutas que resultaram na criação do Estado, Sharon, herói de todas as guerras. Ele se afastou da direita com algum plano que não teve oportunidade de realizar.

Grande estimulador da construção das colônias em territórios ocupados, dava mostras do que imaginava ser um esquema possível de paz, com concessões aceitáveis. Era um líder temido. Sabia impor suas ideias.

Sharon tinha liderança forte. Era chamado de buldogue, Não largava o osso. Não respeitava regras. Sofreu um problema neurológico e passou a ter vida vegetativa. Dorme há anos mantido por máquinas.

Bibi nasceu em Tel Aviv, em 1949, cresceu em .Jerusalém e fez os anos do secundário nos Estados Unidos onde seu pai, Benzion, ligado ao revisionismo, campo político da direita, ensinava numa universidade. Em 1967 voltou a Israel para cumprir seu serviço militar obrigatório.E optou como voluntário por uma unidade de elite. Participou de varias ações de alto risco. Capitão, foi ferido em uma delas.

Com seis anos de quartel, os últimos numa unidade comandada por Ehud Barak, o mais condecorado soldado da historia israelense, Bibi foi ferido e desligado do serviço ativo.Tem uma historia de guerras e condecorações.

Fora do quartel, foi realizar estudos superiores na M.I.T, uma das mais conceituadas universidades americanas. Graduou-se em arquitetura, obteve mestrado em Ciências de Administração, estudou ciência política na Universidade de Harvard.

Em 1979 iniciou e organizou uma conferência internacional sobre terrorismos, patrocinada pelo Jonathan Institute instituído em homenagem a seu irmão Jonathan, comandante e único morto na Operação Entebe. Grandes nomes participaram. Há quem afirme que as recomendações da conferência levaram a mudanças da política dos Estados Unidos no confronto com o terrorismo.

Logo depois, Bibi foi nomeado o número dois na embaixada israelense em Washington e, em seguida, embaixador junto as Nações Unidas. De volta a Israel foi eleito para o Parlamento. Em 1991 foi designado interlocutor de negociações de paz com Síria, Líbano e também de uma delegação mista Jordano-palestina que fracassou.

Em 1993, eleito líder do Likud, partido direitista, em maio tornou-se primeiro ministro.Nesta condição, negociou acordos com os palestinos pelos quais entregou a eles a administração de várias cidades.Tinha prometido mais se os palestinos suspendessem, como prometiam, as operações de terrorismo. Eles não o fizeram e as conversas foram suspensas.

Num disputa eleitoral, em 1999, foi derrotado por Barak, cujo governo seria derrubado por Sharon que foi derrubado pela doença. Como ministro das Finanças de Sharon promoveu a reforma econômica, firmando a aplicação dos princípios do livre mercado. Em eleições de 2009, foi novamente eleito primeiro ministro, formou um gabinete com predomínio da direita. Em Israel todos os governos são de coligação. Em 62 anos de existência partido algum jamais conseguiu maioria absoluta.

O Ministério resulta de complicadas negociações que terminam em compromissos por escrito entre o chefe do governo e os partidos. Raros governos completam seus mandatos. São derrubados pela insatisfação de coligados. Mas as atuais Oposições são muito fracas. Os partidos coligados sabem que a queda de Bibi implicaria na ascensão de Tzipi Livni, líder do centrista Kadima, cujo programa é o oposto daquele do Likud de Bibi e partidos coligados. Não querem Livni inclusive porque a situação israelense exige um pulso forte e nervos de aço. Não existe sequer a segurança absoluta de apoio americano a Israel.

As negociações indiretas de paz entre o governo Netanyahu e o governo palestino de Abu Mazen não avançam com a velocidade desejada por Obama que tinha convidado Bibi a um encontro com ele na Casa Branca. Netanyahu fora antes ao Canadá. Suspendeu o encontro com Obama. Aconteceu o choque no Marmara, navio de bandeira turca transportando carga e gente tentando romper o bloqueio a Gaza. Houve as mortes e feridos e as piores reações contra Israel.

É tudo explicado em versões majoritariamente contrárias a Israel e minoritariamente favoráveis. Só uma investigação por uma comissão de indivíduos do mais alto conceito poderá se aproximar da verdade. Existem varias sugestões sobre a composição da comissão. Ainda não existe uma decisão. E a cada dia piora a imagem internacional do Estado judeu,
O chefe do governo Netanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak são velhos amigos. Foram os que ordenaram a operação. Um é o líder inconteste do Likud direitista, o outro, o líder do Partido Trabalhista supostamente da esquerda.

As consequências da operação ainda estão em andamento, mas a derrota face à opinião publica, em grande parte devido ao noticiário, é inegável. É uma derrota do governo Bibi. É também uma derrota de Israel.

(*) Nahum Sirotsky é correspondente de Zero Hora no Oriente Médio e colunista do portal "Último Segundo".

terça-feira, 8 de junho de 2010

Frei Rovílio – Jayme Copstein

O primeiro aniversário da morte de Frei Rovílio Costa será reverenciado em Caxias do Sul com a exposição "Amigo do Livro: Frei Rovílio – Herança Cultura Viva", no Museu dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul (Rua General Sampaio,189 - Bairro Rio Branco). Participam da homenagem EST Edições, o jornal Correio Riograndense e a comunidade caxiense. A mostra inaugura-se amanhã, às 5 da tarde e estará aberta à visitação pública, de quinta-feira em diante, até 20 de novembro, das 8 às 11 e das 14 às 17 horas até 20 de novembro, de segundas a sextas-feiras.

Frei Rovílio, como sacerdote, cidadão e profissional foi um símbolo do que de melhor todos desejamos do gênero humano. Quando faleceu, no ano passado, escrevi ter estranhado a expressão "apostolado do livro", ouvida ao sermos apresentados por Paulo Fontoura Gastal. Tornamo-nos bons amigos e pude testemunhar como a expressão era adequada pelo trabalho que ele realizava na difusão do livro.

Mais até: na convivência que se prolongou por 40 anos, também escrevi na ocasião, chamou-me a atenção que Frei Rovílio não tinha tempo para o lazer. Sua passagem por festas era um relâmpago. Sempre havia doentes a visitar, batizados a fazer em alguma vila da cidade ou missas para rezar bem cedo, impedindo-o de dormir tarde.

Do seu tempo de vida usou o mínimo indispensável para si mesmo. O resto foi entrega e devotamento ao que definiu como sua missão e, por isso mesmo, mais do que ninguém, dele pode se dizer que foi um autêntico servo de Deus.

O cipó da Ford

O secretário da Fazenda de Encruzilhada do Sul, RS, Antônio Olmiro Alves de Souza, acrescenta às observações de "O cipó da Ford", nossa coluna de 3 de junho:

"1) Antonio Carlos Magalhães já tinha deixado o Governo da Bahia, em 31 de dezembro, como  Antonio Brito, aqui no Rio Grande do Sul.

2)   Assumiu o Governo da Bahia, no mesmo dia que Olívio Dutra, Cezar Borges.

3) Quando Cezar Borges começou a ler na imprensa do Centro do Pais que o Rio Grande do Sul não queria cumprir o contrato com a Ford, que os incentivos eram excessivos, que  a Ford estaria disposta a  sair do Rio Grande do Sul, então a Assessoria de Cezar Borges sugeriu-lhe  a publicação de anuncio no jornal o Estado de São Paulo, dizendo que a Bahia cumpria os seus acordos. Após certa relutância, o Governador da Bahia concordou com a publicação.

4) Sugiro que "O cipó da Ford" seja remetido por e-mail a todos os partidos e candidatos a deputados para manter a história viva .

domingo, 6 de junho de 2010

Atrás do bate-boca – Jayme Copstein

Passada uma semana do incidente com o navio Mavi Marmara, a militância continua em guerra contra Israel. Há muitos slogans, frases feitas, adjetivos depreciativos, mas nada de novo no palavreado que já tem sido usado contra outros "inimigos". É a surrada violência, disfarçada de indignação, típica dos '"tribunais do povo" do nazismo e do estalinismo, onde tudo pode ser dito contra o acusado e nada pode ser alegado em sua defesa: o julgamento é uma farsa para justificar a condenação prévia, por interesses políticos.

O Conselho de Segurança da ONU prometeu investigação descomprometida, mas já surgiram protestos de ONGs" obscuras, contestando o "direito" de Israel de usar os vídeos, mostrando os soldados sendo atacados pelos militantes islâmicos, antes de reagir. A alegação é a de que foram "apreendidos ilegalmente" e não podem ser vir como prova.

Descontadas fantasias jurídicas de quem se impressiona com os "julgamentos" do Law&Order, não há prova mais cabal do que aconteceu: os vídeos foram filmados pelos próprios militantes. Com que intenção é difícil saber. Se tivessem sido bem sucedidos, provavelmente para exibi-los como troféu, como fazem com outros vídeos mostrando degolamentos e empalações, vistos livremente no You Tube por quem tenha estômago para tanto.

Como a empreitada saiu mal, só querem exibi-los a partir da reação dos soldados israelenses, para fazê-la parecer gratuita e excessiva diante de "pacíficos ativistas". É a velha tática de contar a História, começando por onde lhes convém, como acontece em relação à Segunda Guerra Mundial, que só parece ter começado quando os nazistas ousaram atacar a sacrossanta União Soviética. Escamoteiam o fato antecedente da aliança de Hitler e Stalin, o consequente massacre da Polônia e a divisão dos despojos entre ambos.

Segundo as informações, o Mavi Marmara transportava 600 pessoas, entre pacifistas sinceros, simpatizantes da causa palestina e militantes islâmicos. Se realmente os soldados israelenses tivessem chegado ao navio disparando contra a "multidão" como foi alegado, não haveria apenas nove mortos – todos, por coincidência, militantes islâmicos – e nenhum soldado teria sido ferido – foram sete, atingidos por facadas, bordoadas com barras de ferro e com tiros de pistola, os dois em estado mais grave.

Há também alegações de ilegalidade quanto à interceptação, de parte de Israel, de navios que se dirijam a Gaza, para fiscalização da carga e repressão ao contrabando de armas. O Hamas, que domina a área, está em guerra declarada contra Israel, expressa por palavras e ações militares concretas (bombardeio com foguetes). Nesse caso o bloqueio é previsto pela legislação internacional, legitimando a interceptação, mesmo fora de águas territoriais, de quem expressamente pretenda furá-lo, seja a que pretexto for.

O que pode e deve se discutido no episódio é o que aconteceu verdadeiramente no Mavi Marmara, o único dos seis navios do comboio onde se registram as cenas de violência. Naquele dia, as cinco outras embarcações, bem como o Rachel Corrie, anteontem, foram também abordados, a carga foi inspecionada, levada ao porto de Ashod, de onde será encaminhada a Gaza.

O resto é mero bate-boca ideológico.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

(In)Cultura (in)útil – Jayme Copstein

Nada como revisar gavetas, discos de computadores, pendrives e quejandos, principalmente quando se tem a mania de anotar coisas e o talento especial para desorganização ampla, geral e irrestrita.

Antes de qualquer outra consideração, avisa-se aos incautos que "quejando" nada tem a ver com queijos. É palavra antiga que significa (ou significava, sabe-se lá se já não foi revogada) "semelhante", "da mesma natureza".

A ressalva é importante porque há pouco, ao noticiar a vitória do Chile na disputa com a Espanha para abrigar o "Telescópio Extremamente Grande", e entrar com a contribuição de alguns milhões de euros para a Organização Europeia para a Investigação Astronômica no Hemisfério Sul, a BBC Brasil afirmou:

"Mais que a qualidade do céu, que favorece a astronomia, pesaria a favor da Espanha o fato de o país estar disposto a investir 300 milhões de euros (cerca de R$ 680 milhões) no projeto".

Com o que fica revogada a noção de que o céu não é o mesmo em toda parte, porque está sujeito a chuvas e trovoadas da semântica, uma vez que a BBC Brasil com toda a certeza revogou a palavra "meteorologia".

O "filotélico"

Por falar em palavras revogadas e inventadas, encontro outra anotação curiosa sobre a origem da palavra filatelia, proposta pelo francês Georges Herpin, em 1864, para designar colecionadores de selos postais. Foi composta com duas palavras gregas, "Philos" (amigo) e "ateles" que tem o sentido de "franqueado", livre de taxas quando referida a objetos. Pois até hoje, colecionadores de selos discutem se o certo não seria "filotelia".

Até aí tudo bem. O sexo dos anjos é uma questão fundamental que a humanidade ainda não conseguiu decifrar, mas o redator de uma reportagem sobre filatelia, após demonstrar conhecimento de causa, lembrando que Herpin a publicou pela primeira vez em Le collectionneur de timbres-poste (O colecionador de selos postais), resolveu acrescentar que "ele ou o linotipista se enganaram, o erro não foi notado pelo revisor e a expressão entrou em uso em todas as línguas do mundo". Como ele explicaria erros de revisão em "filantropia", "filarmônica", e "filargiria, criadas muitos anos antes de filatelia?

A consulta ao dicionário mostra que a "fila" (sem trocadilhos) das palavras com esse sentido é pequena (cinco, no máximo), fazendo companhia a filelênico (a única com esse "e"), mas é correta pela fusão da vogal final em filo com a vogal inicial de antropo e harmonia e helênico. Daí porque é filargiria (amor ao dinheiro) e não filogíria (amor à gíria).

O Papa espírita

Vocês sabiam que houve um papa espírita? Pois uma revista do início do século 20 assegura que o Pio X (1903 a 1914, canonizado em 1951), antes de subir ao trono "ocupara-se apaixonadamente do Espiritismo", tentando falar com os mortos através da mesa de pé de galo (mesinha de três pés, especial para experiências de comunicação com o além). Mesmo depois de elevado ao Papado, Pio X não perdeu o interesse pelo assunto. Foi o primeiro a receber um grosso volume sobre o Espiritismo, escrito pelo seu médico, José Lapponi.

Mas, afinal, o que tem a ver isso com a filatelia e quejandos? Nada, absolutamente nada, mas no início da coluna avisei honestamente que bagunça é comigo mesmo. Quem quiser estágio sobre desorganização, fico inteiramente às ordens. Garanto que meus diplomados nunca mais acharão nada dentro de casa. A não ser, é claro,. Inutilidades como estas notas.

Muito barulho por nada – Carlos Brickmann

Há muitos e muitos anos, um dos mais importantes políticos brasileiros, Carlos Lacerda, dizia que o SNI, o serviço secreto dos Governos militares, às segundas-feiras não enviava seus informes confidenciais às autoridades. Motivo: naquela época, os principais jornais não saíam nas segundas.

O barulhentíssimo caso do dossiê que a equipe de Dilma é acusada de preparar contra seu adversário Serra é mais ou menos isso: o que se falou que consta do tal dossiê é notícia que se acha em jornal velho. Parte está no relatório da CPI do Banestado, de 2006, preparado pelo deputado federal petista José Mentor; parte está em reportagens do hoje blogueiro Ucho Haddad (http://ucho.info/), publicadas em 2002 sob o título geral "A Queridinha do Papai".

Deve haver uma turma da pesada trabalhando com Dilma, como deve haver uma turma da pesada com Serra. De algum lugar saem aquelas bobagens que aparecem na Internet a respeito de Dilma, que estaria proibida de entrar nos Estados Unidos (embora tenha ido lá há poucos dias), ou de Serra, que teria oferecido ao enroladíssimo ex-governador de Brasília José Roberto Arruda a vice de sua chapa (embora até aquele queijo branco light que Serra tanto aprecia soubesse que seu vice favorito seria Aécio Neves). Faz parte do jogo. Mas não funciona.
Os partidos brigam por causa do dossiê, vão à Justiça - e daí? A maior parte dos eleitores usa o jornal não para ler, mas para embrulhar peixe. Ganha quem levar o adversário a se preocupar com bobagens e a perder o foco na campanha.

Por falar nisso

Outro dossiezão está sendo preparado, coincidindo com o início do horário eleitoral gratuito. É uma releitura da CPI do Banestado, de 2006, em que parentes, amigos e supostos amigos de Serra são acusados de remessa ilegal de divisas.

A lei?

As centrais sindicais, mantidas com dinheiro dos assalariados (recebem parte da Contribuição Sindical, um dia de salário de cada trabalhador), gastaram R$ 800 mil para realizar ato público de apoio a Dilma Rousseff e repúdio a José Serra, no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Atraíram pouco mais de 20 mil pessoas. Explicar os gastos será complicado: o dinheiro que recebem não é para participar de campanhas eleitorais - até porque os contribuintes compulsórios de seus cofres nem sempre apóiam o candidato preferido dos cartolas das centrais.

Ora, a lei!

Já que o presidente da República não se importa com multas eleitorais, já que as centrais sindicais gastam abertamente o nosso dinheiro em apoio a seu candidato, parece que houve o liberou geral: Marta Suplicy, candidata ao Senado (e forte) pelo PT paulista, usou a festa de aniversário do ex-prefeito de Diadema, José de Filippi, para fazer campanha e pedir votos (o que só será permitido a partir de 5 de julho, segundo a lei). Este colunista acha que a lei é ruim e que a campanha deveria ser permitida a qualquer tempo; mas a lei existe e, até que seja mudada, tem de ser cumprida. Aliás, por que o PT de Marta ainda não a mudou?

Saia justa

Marta, política experimentada, antiga estrela de TV, costuma sair-se bem das mais difíceis situações. Mas nem sempre: há uma semana, visitando a exposição turística Roteiro do Brasil, no Anhembi, SP, uma promoção do Governo federal, passou reto pelo estande paulista - o estande do Estado que ela pretende representar, como senadora. Mas teve a atenção atraída, ali pertinho, por atores vestidos como bandeirantes e nobres portugueses. Um deles, caracterizado de nobre, finíssimo, aproximou-se da candidata, beijou-lhe galantemente a mão, à moda antiga, e disse, relembrando a célebre frase do apagão aéreo: "Ministra, relaxe e goze". Fez-lhe uma elegante reverência e saiu. Marta ficou muda, sem reação.

Brasil antigo

Uma pesquisa preocupante: segundo o DataFolha, mais da metade da população é contra a adoção de crianças por um casal gay. É preocupante por mostrar que boa parte da população prefere deixar a criança num orfanato ou abandonada, sem família, a entregá-la a pessoas cujo comportamento sexual rejeita. É importante notar que a alternativa não é a adoção por um casal heterossexual: é o abandono puro e simples. De qualquer forma, Toni Reis, que lidera uma associação de homossexuais, acha que o resultado foi bom, foi um avanço: "Na Idade Média éramos queimados. Depois, tidos como doentes ou criminosos. Agora, quase metade da população aceita a adoção por gays. É uma ótima notícia".

O famoso major

O PDT paulista insiste no Major Olímpio para vice do petista Aloízio Mercadante. Conhece o Major Olímpio? Não? Que alivio: então não é só este colunista.

Macho e fêmea

O jornalista Xico Sá lança segunda-feira, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, SP, às 18h30, um livro divertidíssimo: Chabadabadá - aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha. Xico acha que vivemos um tempo de homens frouxos e procura ajudar as mulheres a entendê-los. E, o que é melhor, num texto muito bem-humorado. Dá até para tentar identificar os personagens.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O sol dos trópicos – Jayme Copstein

Como as pegadinhas andam na moda, não pude conter o riso ao ler sobre a que foi aplicada em colonos alemães na década de 1850, segundo notícia do jornal "Gazeta da Tarde", de 18 de junho de 1888 e transcrita pelo "Almanak do Rio Grande do Sul", de Alfredo Ferreira Rodrigues, edição de 1900.

Havia chegado uma leva desses imigrantes à cidade de Santa Cruz, e e eles se surpreenderam ao serem cumprimentados com grande intimidade e em alemão, por um negro. Desconfiados, porque nunca tinham visto aquilo, os colonos perguntaram-lhe se, por acaso, era patrício.

O negro respondeu que sim. Que quando havia chegado, há alguns anos, tinha a pele clara e os cabelos louros como eles. Mas como o sol destas paragens era muito forte, queimava a pele, tornando-a escura e torrava os cabelos, encarapinhando-os.

Foi um Deus nos acuda. Os colonos entraram em pânico e começaram a exigir a imediata viagem de volta. Foi um caro custo acalmá-los, até alguém conseguir explicar que o "alemão preto" era um ex-escravo, de nome Manoel Germano, muito brincalhão, famoso pelas peças que pregava em todo o mundo.

Manoel fora criado pelos Klingelhoefer e com eles aprendera o idioma, falado com sotaque igual ao dos colonos, pois a família provinha da mesma região da Alemanha.

Quando morreu em 16 de junho de 1888, um mês depois da Abolição, Manoel era pedreiro. Provavelmente fora emancipado ao tempo da Revolução Farroupilha, pois a notícia de sua morte, publicada pelo jornal Gazeta da Tarde, dois dias depois, assinalava ter servido aos farrapos com os Klingelhoefer que, por sinal, foram mortos pelas tropas imperiais.

A essência do PAF – Hilton Almeida

Eu andava muito preocupado com o nível de despesas no supermercado. Falei para um amigo que trabalha com propaganda e ele me sugeriu criar o PAF - Programa de Alimentação da Família.

Gostei da ideia, que consiste no seguinte: quando minha mulher vem do supermercado, vou esperá-la na frente do prédio com salvas de palmas e muitos foguetes. É uma festa, até os vizinhos vão aplaudir, se bem que são os do lado esquerdo. Aquilo que antes era uma preocupação, passou a ser uma comemoração.

Minha mulher subiu nas pesquisas para presidente da associação do bairro. Estou até pensando em lançar o PAF-II. Em vez de uma, vou mandá-la duas vezes por semana ao super. Assim, comemoraremos em dobro. Aproveitando a onda, vou me candidatar a delegado do OPACO - Orçamento Participativo Comuni...tário. Ou síndico do condomínio.

Qualquer coisa me serve. A nossa cozinheira é que anda reclamando, pois o rancho vem cada vez mais escasso. Já mandei cortar a sobremesa e cancelei o plano de saúde. Só não deixo de comprar os foguetes.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O cipó da Ford – Jayme Copstein

Passados tantos anos, as versões sobre a desistência da Ford, de instalar montadora no Rio Grande do Sul, ainda se confrontam como se fora discussão sobre se houve ou não pênalti no último Grenal. A recente decisão do julgamento de primeira instância, mandando a Ford indenizar parcialmente os gastos do Estado com o projeto, tem sido apresentada como sentença final para o "eu não disse?" dos dois lados.

Levará muito tempo, ainda, até a questão ser resolvida definitivamente no STF. Contudo, subsistem alguns mitos, como o de que o baiano Antônio Carlos Magalhães conspirou com Fernando Henrique Cardoso para "roubar a Ford do Rio Grande", mas não resistem à simples análise da linha do tempo.

Ninguém esperava de Antônio Brito a façanha de perder a reeleição em 1998. Digo com a tranquilidade de quem nele nunca votou. Era governador jovem, com projetos atraentes para revitalizar a economia do Estado através da industrialização, mas foi acometido pelo "mal das alturas": a arrogância de quem se vê subitamente alçado ao cume do poder. Além da reeleição certa, era cogitado falado para uma futura Presidência do Brasil. Perdeu os poucos votos que lhe dariam a vitória no primeiro turno e ainda somou outras tantas defecções no turno final.

Portanto, até novembro de 1998, só bêbado é que Antônio Carlos Magalhães pensaria em conspirar para "roubar" a "nossa" Ford. Ademais, fora da Bahia, seu poderio não era lá essas coisas, tanto assim que teve de renunciar ao mandato, para não ser cassado ao violar o sigilo do painel do Senado.

O que afugentou a Ford do Rio Grande do Sul foi outro mito que os marxistas têm quase como dogma: o último capitalista será enforcado com uma corda que venderá em prestações aos carrascos. A piada funciona em mesa de botequim, nada tem a ver com a realidade.

Quando o PT assumiu o Governo, no quadriênio 1999 -2002, o que vinha pela frente foi explicado pelo novo secretário de Desenvolvimento Econômico e Assuntos Internacionais (Sedai), José Luiz Vianna de Moraes, o Zeca Moraes, cuja experiência no mundo dos negócios era com os camelôs da Praça 15. O jornalista Ayrton Centeno o entrevistou para Zero Hora e registrou em sua matéria, "a inversão da política industrial adotada nos últimos quatro anos, quando os privilegiados com os recursos do Estado foram grandes grupos nacionais ou multinacionais, casos da General Motors, Ford, Souza Cruz, Philip Morris, Brahma e Coca-Cola".

Minhas notas daquela época registram a recusa do governo Olívio Dutra de cumprir o contrato assinado por Antônio B|rito, pelo qual o Estado comprometia-se com 418,9 milhões de reais (234,3 milhões em obras de infraestrutura, 184,6 milhões em financiamento de capital de giro) e mais concessão de créditos de ICMS durante 15 anos, com 12 anos de prazo para retorno.

O governador Olívio Dutra alegou que eram excessivos os incentivos e recursos prometidos para atrair a Ford e que o contrato deveria ser renegociado. Contudo, executivos da Ford foram vítimas de grosserias de assessores de Olívio Dutra nas duas vezes que, convocados, compareceram ao Palácio Piratini para conversar. Na hora da audiência, foram avisados do cancelamento porque uma comissão de trabalhadores e trabalhadoras disso ou daquilo "havia chegado inesperadamente" e tinha precedência.

Foi quando a Ford decidiu não vender a corda da forca. Usou-a como cipó para pular fora. Aterrisou na Bahia.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Sócrates e o Hamas – Jayme Copstein

Estava começando a reler o discurso com que Sócrates se defendeu, em vão, no tribunal que já o condenara à morte antes mesmo de ouvi-lo, quando me chegou o noticiário sobre o incidente protagonizado por soldados do Exército israelense e militantes pró-islâmicos no navio turco "Mavi Marmara". Fui logo para Internet, tentado saber o que acontecera de fato. Ressalvadas algumas vozes comedidas, chocadas com a tragédia, porém advertindo da necessidade de informações completas para a emissão de juízo, logo explodiu a histeria de sempre quando se trata de Oriente Médio.

Não vou enumerar os massacres com dezenas e até centenas de milhares de vítimas em eventos na Nigéria, Somália, Sudão, Saara Ocidental, Tibet, Etiópia e em outros cenários de uma extensa lista porque boa parte dos leitores sequer terá prestado maior atenção no noticiário que enumerou as mortes como se fora em um balanço contábil. Chamou-me a atenção, todavia, entre as sentenças dos "tribunais populares" que logo congestionaram determinados sites, a observação de um "juiz" sobre "qual desfaçatez Israel vai arranjar agora para negar sua culpa". Daí, pincei alguns parágrafos do discurso de Sócrates, que me parecem muito atuais, mesmo tendo sido pronunciados há 2.400 anos:

"Qual a impressão que, cidadãos de Atenas, os meus acusadores vos causaram não sei, mas, quanto a mim, quase cheguei a me esquecer de mim mesmo, tão persuasivos foram os seus argumentos. E, não obstante, é difícil achar no que disseram uma palavra verdadeira. Entre as muitas falsidades que proferiram, uma houve que me deixou perplexo - foi quando afirmaram que devíeis estar de sobreaviso, para não vos deixardes iludir por mim, dado eu ser um formidável orador. Por isso pensei que a maior desfaçatez do seu procedimento foi a falta de pudor de se verem desmentidos pelos fatos, quando eu aparecesse perante vós tal como sou, jamais como hábil orador; salvo se eles chamam hábil orador àquele que é verdadeiro (...) que a vossa atenção não se prenda à forma do meu discurso, pois talvez seja pior, ou talvez seja melhor - e considereis de preferência e atentamente apenas isto: se o que digo é justo ou não, pois nisso consiste a virtude de juiz, enquanto a virtude do orador consiste em falar a verdade".

O Conselho de Segurança da ONU condenou o uso da força que resultou na tragédia, mas acrescentou a necessidade de uma investigação "imediata, imparcial e transparente".

A investigação do Conselho de Segurança da ONU é por demais necessária. Com toda a certeza, vai começar por um vídeo do governo israelense, mostrando soldados, antes de reagir, sendo agredidos pelos manifestantes pró-islâmicos com barras de ferro e machadinhas, quando o helicóptero os desceu no navio turco. O vídeo pode ser visto em http://www.youtube.com/watch?v=0LulDJh4fWI&feature=player_embedded

O próprio Governo israelense reconheceu que houve erro tático e deve punir a incompetência de quem comandou a abordagem do Mavi Marmara com poucos soldados, insuficientes para conter os alegados 600 manifestantes que o navio transportava. No meio de pacifistas sinceros, com toda a certeza havia militantes treinados para entornar o caldo, como é comum em qualquer movimento de massas. Não prever a hipótese é convite à tragédia.