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quarta-feira, 11 de março de 2009

Está faltando um inspetor - Jayme Copstein

Yeda Crusius tem razão quando se queixa de que o desmentido das acusações, imputadas por líderes gaúchos do PSOL, não mereceram o mesmo destaque no noticiário.

Se a veracidade das denúncias formuladas era hipótese consistente, não havia como divulgá-las fora das manchetes. Mas se apenas a busca da verdade estava em jogo, não há outro lugar também para a retratação, sob pena de tudo sugerir o trucidamento político da governadora.

Como a assunto vai terminar é um enigma. Provavelmente em nada porque a impunidade é o destino de todas as transgressões neste país.

No rescaldo, a tragédia do ex-representante do governo gaúcho, Marcelo Cavalcante que aparentemente se suicidou em Brasília, premido por dívidas. Nada que a perícia médico-legal não possa esclarecer. Ninguém é jogado de uma ponte sem que seu corpo fique marcado pela violência de quem o coagiu.

Há muitos rumores em torno do caso sem nenhum pé na realidade – prêmio da colaboração em investigações policiais é imunidade, não o dinheiro para resolver aperturas financeiras.

Tudo isso faz lembrar uma peça do britânico J. B. Priestley – “Está lá fora um inspetor” – cujos personagens confrontados pelo remorso, representado por um policial fictício, admitem sua culpa no suicídio da operária de uma fábrica da família.

A peça é um libelo contra a ganância e a indiferença do capitalismo em relação ao destino do resto da humanidade, que em nada difere, nos métodos e na voracidade pelo poder, do fundamentalismo cego que só enxerga seus próprios objetivos.

Falte entre nós alguém descompromissado com dogmas, como o também britânico George Orwell, para trazer a esta tragédia o inspetor que é a nossa consciência, principalmente dos que para ela contribuem com a cumplicidade do seu silêncio.

domingo, 8 de março de 2009

No altar da hipocrisia - Jayme Copstein

Deixemos de ser hipócritas. O Brasil não se abalou com o estupro em si da menina de nove anos em Pernambuco. Milhares de estupros contra crianças são cometidos todos os dias no país e deles pouca conta se dá. Eram também notícia, junto com a de Pernambuco, mas disso já não se fala mais, uma menina morta em Minas Gerais pelo estuprador e ainda outra, aqui no Rio Grande do Sul, cujo autor foi “liberado após ser ouvido” e “encontra-se foragido” – dois lugares para lá de comuns na crônica policial.

Há abundância de registros, não noticiados, nas delegacias especializadas, postos de saúde e entidades de assistência a menores, onde parte dessas crianças são atendidas quando algum familiar busca ajuda. O mais comum, porém, é as meninas serem escorraçadas de casa, acusadas de terem seduzido o pai ou “padrasto”. (*)

Confrontada com a lógica de que uma criança não tem ascendência sobre adultos, a mãe de uma dessas meninas foi direta em sua justificativa: “Criança eu faço quando quiser, arranjar marido é que é difícil”.

Na essência o palavreado tosco não difere da decisão unânime do Supremo Tribunal Federal, quando absolveu por unanimidade o estuprador de uma menina de 12 anos, porque que “Nos nossos dias não há crianças, mas moças de 12 anos. Precocemente amadurecidas, a maioria delas, já conta com discernimento bastante para reagir ante eventuais adversidades, ainda que não possuam escala de valores definidas a ponto de vislumbrarem toda a sorte de conseqüências que lhes pode advir (Habeas-corpus 73.662-9 MG).”

A diferença está em que a mulher concedeu impunidade ao estuprador da própria filha, os ministros do Supremo, ao estuprador de filha alheia.

Não, o Brasil não se abalou com o estupro e a gravidez de gêmeos da menina de 9 anos nem com o caso do Rio Grande do Sul, do qual ninguém deu muita conta, nem se fala mais.

O país ficou algariado com a decisão do arcebispo do Recife, de excomungar os médicos e a mãe da vítima que os autorizou ao aborto preventivo, porque a excomunhão toca na ferida mais pútrida deste país: a simplificação das soluções – aborto, esterilização, pena de morte, apenas exemplificando – para soterrar o estrume que a sociedade brasileira produz com sua irresponsabilidade, alienação e sibaritismo.

Fácil é chamar o arcebispo do Recife de atrasado, de reacionário, de medieval porque obcecado pelos dogmas da disciplina, impermeabilizou-se à percepção do extremo risco representado pela gravidez de gêmeos em uma menina de sete anos. Fácil é chamar o Papa Bento XVI de nazista porque apoiou seu arcebispo, de acordo com os cânones da religião que lidera.

Difícil é assumir nossas responsabilidades para banir a ignorância que gera a miséria e seus corolários: a doença, o crime e a corrupção. Dos quais o estupro e a prostituição de menores já é mero pormenor.

(*) Quem quiser ver essas “moças” de 12 anos, como as classifica o STF, transite pela “zona” de qualquer cidade brasileira. Em Porto Alegre, 24 horas por dia, estão na Rua Garibaldi, quadra entre Voluntários e Farrapos. Há “ideólogos”, travestidos de responsabilidade social, que defendem a situação, qualificando-as de “arrimos de família”.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Velhas cantigas - Jayme Copstein

“As pressões que o PMDB, capitaneado por José Sarney, Renan Calheiros, Michel Temer e outros menos votados, ameaçam desembocar em crise política. É estranho, tanto a vocação do sr. José Sarney, que parece estar sempre em qualquer rampa por onde a vida do país deslize para o atraso, quanto o poder que ele detém dentro do parlamento, a ponto de tornar refém o governo da República. Ocupado com as tricas e futricas do apoio deste PMDB, descaradamente na base do toma lá, dá cá, o governo do sr. Luiz Inácio Lula da Silva parece imobilizado e estático, e com isso descontentando outros aliados, à espera do cumprimento de promessas, utilizadas como engodo para mantê-los bem comportados”.

Sabem de quem é este texto? Deste colunista. Foi escrito em 14 de janeiro de 2004 e é reproduzido agora porque o leitor Mário Borba, de Porto Alegre, pergunta por que ele não tem se ocupado com mais profundidade do fandango em que os personagens citados transformaram a vida pública brasileira.

A razão é simples: estar falando como se pregasse no deserto. Em janeiro de 2008, em comentário de estreia na Rádio Pampa, falei a Marne Barcelos que, se pegasse tudo o que já havia escrito sobre a malandragem e corrupção na política, bastaria substituir os que morreram por outros “vivos”. O resto poderia ficar tal como foi redigido, palavras por palavra, vírgula por vírgula.

Confesso que há exagero nessa afirmativa. Passados cinco anos desse comentário, sequer o nome dos “vivos” é necessário mudar.

“Em nome do bom senso e para preservar vidas inocentes é necessário que se contenham malucos messiânicos, do tipo João Pedro Stédile, ou Bruno Maranhão. Faça-se com urgência, antes que ocorra uma tragédia semelhante ou até pior que a de Carajás, quando a irresponsabilidade criminosa de líderes do MST jogou uma massa de pobres coitados conta a Polícia Militar”.

O texto (“Antes que seja tarde”) é de 2006. Acrescente-se apenas que militantes do MST assassinaram quatro seguranças de uma fazenda em Pernambuco.

Poderia seguir nesta trilha até o infinito. Nunca contei quantos comentários escrevi sobre a política brasileira, mas apenas reproduzo o parágrafo final de “O comício dos deserdados”, de 2005:

“A sociedade brasileira é permanente exercício de hipocrisia dissimulado na eloquência de um comício de deserdados. Eles são convocados para bloquear estradas, fechar ruas, destruir patrimônio público, gritar palavras de ordem e ouvir discursos de privilegiados – o advogado, o médico, o jornalista, o juiz, o dentista, o economista, o empresário, o contabilista, o burocrata, o artista da novela, as senhoras do chá das cinco, os jovens dos bares da moda. Os deserdados continuam cada vez mais deserdados”.

Que mais se pode dizer?