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quinta-feira, 23 de abril de 2009

A lã das ovelhas - Jayme Copstein

Cada povo tem o político que merece? Ou cada ovelha têm o tosquiador que elege?

É absolutamente inofensiva e despida de qualquer sentido a reação do eleitor diante da Casa de Mãe Joana em que se transformou o Parlamento brasileiro.

Repetem-se os mesmos desaforos, as mesma piadinhas e mesmíssimas sugestões estapafúrdias de fechamento do Congresso, quando seria o caso de ir para as ruas exigir o fim imediato da patifaria, com a devolução do dinheiro apropriado ou indenização pelos abusos cometidos e, principalmente, a imediata reforma política – voto distrital, eleição também dos suplentes dos senadores e instituição da retomada do mandato, como existe em qualquer país civilizado, para que o povo decida o destino dos corruptos.

Da proverbial carneirice resulta mais tosquia: o presidente da Câmara Federal, ele próprio envolvido na esbórnia das passagens – vai moralizar o “pedaço” aumentando os subsídios dos deputados. Deseja apenas ganhar tempo. Conta com a falta de memória do eleitor e também porque amanhã é outro dia. Vocês sabem... aquele empreguinho, aquela concorrenciazinha...

De fato, cada ovelha tem o tosquiador que elege.

domingo, 12 de abril de 2009

Ditos e Achados - Marcos Rolim (*)

“A administração pública no Brasil se fragiliza por muitas razões. A primeira delas é a corrupção endêmica – um fenômeno que, a par de todas as denúncias, segue subestimado. A segunda é a colonização do Estado pelos partidos; processo que torna a ideia de ‘interesse público’ uma miragem e dissemina a incompetência”.

(*) Marcos Rolim, jornalista, em “Pelo bom Debate” (Zero Hora, 12/04).

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O público e o privado - Jayme Copstein

Com freqüência, lêem-se campanhas nos jornais para não se emporcalhar as ruas com lixo. Motoristas jogando cascas de frutas, latas de cerveja, outras embalagens e até coisas inimagináveis pelas janelas dos carros é um espetáculo comum em qualquer cidade brasileira. Bueiros entupidos por garrafas de plástico e outros objetos, também inimagináveis, é lugar comum em noticiário de tevê nos alagamentos dos dias de chuva.

Não é por falta de apelos e conclamações que as pessoas continuam emporcalhando as ruas. O que há é uma visão equivocada do “público” e do “privado”. Lembro-me de cena que testemunhei na Rua da Praia, em Porto Alegre, de um menina de 15 anos repreendida por uma senhora porque tinha jogado a embalagem do picolé no calçadão, mesmo com uma lixeira disponível a dois metros de distância. A menina respondeu: “A rua é pública e eu faço o que eu quero.”

Se a rua é pública – e de fato é – pertence a todos, não a alguém em particular, à menina em questão ou a quem mais seja. Não pode ser usada ao arbítrio de cada um. Dentro de casa – espaço privado – sim, o dono ou os seus familiares podem jogar o que bem entenderem no chão, escreverem o que bem quiserem nas paredes e até fazerem banheiro da sala de visitas. Este, aliás, foi o tema de um comercial premiado em festival internacional de propaganda: se você não faz dentro de casa, que é sua, por que faz na rua que é de todos?

Se aprofundarmos a análise da questão, vamos chegar à conclusão de não haver diferença entre o aparentemente inofensivo porcalhão que joga lixo nas ruas e o político ladrão que se ceva nos dinheiros públicos. Se qualquer de um de nós deixar cair a carteira, ao passarmos perto de um governante, senador, deputado ou vereador, tenham certeza: eles a devolverão intacta em comovedora demonstração de honestidade.

Porém, quando se trata de dinheiro da Nação – sendo público, não é de ninguém – fazem o que bem entendem: pagam celular dos filhos, compram passagens aéreas para os amigos, abastecem o carro da família, contratam a empregada doméstica como assessora, esbanjam em restaurantes caros e até o põem tranquilamente no bolso.

De que nos queixamos, então? De não termos um mandato político? No resto, parece que somos muito iguais.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A banda de Zé Sarney - Jayme Copstein

Todo domingo havia banda no coreto do jardim. Era a banda do Serafim, que tinha uma tuba, dentro da qual entrou um gato, e a tuba tocou assim... rom-rom-rom – MIAU – rom-rom-rom-rom.

É uma velha marcha de Carnaval, mas como vivemos em alegria permanente, como nunca na história deste país, é meio parecida com o empenho (reserva de verba) de 135 mil reais que o Senado fez para comprar microfones, um de alta sensibilidade para captação de voz, três para captação de instrumentos, sete varas para usomde microfones direcionais e outros 10 para repórteres.

Tudo indica que Zé Sarney, em sua nova e moralizadora administração do Senado, decidiu formar uma banda para alegrar o povo desta Nação, tão cansado de demagogia e corrupção.

Especula-se quem será o maestro, se Renan Calheiros ou Fernando Collor de Mello, sabidamente dois eminentes tocadores de tuba com gato. Como será um espetáculo híbrido, misturando forró com prestidigitação, já se formou uma fila imensa de candidatos a mágicos especializados em sumir com o miado do gato. O bicho berra dentro da tuba, mas todos fingem que não ouvem. O que, aliás, já enseja a oportunidade de se empenhar mais alguns milhares de reais para comprar aparelhos de surdez.

Enquanto isso, a Câmara Federal também empenhou uma verbinha de 560 reais para comprar “frascos de creme para as mãos”. Com o que o ilustre presidente Michel Temer cumpre a promessa de acabar com os escândalos de verbas de representação, passagens aéreas, combustível, auxílio moradia etc. etc. etc. Lubrificando os dedos, a manipulação torna-se mais discreta, suave e silenciosa.

De fato, não dá escândalo. E para mostrar seu despreendimento, como não há referência no Orçamento da Câmara, o ilustre presidente deve pagar do próprio bolso o Óleo de Peroba para manter impávida a sua augusta face.

sábado, 4 de abril de 2009

O perguntador - Jayme Copstein

Alguém – o Perguntador – me escreve, perguntando o que vou fazer diante da aprovação da Câmara ao aumento do número de vereadores. A resposta é simples – vou continuar escrevendo contra a demagogia dos deputados que apenas desejam cabos eleitorais de luxo em seus feudos políticos.

Mas não é isso que o Perguntador tem em mente. Quer saber o que de concreto vou fazer para impedir “mais este assalto aos dinheiros públicos”.

Ocorreram-me várias coisas, uma delas exercer a cidadania do Perguntador. Porque ele, “entende”, não pode fazer nada. A sobrinha da cunhada está para ser nomeada para uma “mamata” que o deputado fulano vai arranjar e, “entende”, aí pode complicar...

Ah! Tem o filho do primo segundo, assessor de vereador, entrega metade do que ganha para o edil, mas – “entende” – ele pode se incomodar, e mesmo a metade do salário sempre dá para alguma coisa.

Não tenho como assumir a cidadania do Perguntador, como ele quer. Então, continuarei escrevendo contra a demagogia e a corrupção, e o Perguntador vai continuar me perguntando e se corrompendo porque – “entende” – ele tem o que perder se a corrupção de fato acabar algum dia.

terça-feira, 31 de março de 2009

Shakespeare na Daslu - Jayme Copstein

Não sei como é em outros países. O noticiário é escasso cá por estas bandas, mas que no Brasil o Direito é um algo muito complicado, isso é. É só olhar para toda a lambança envolvendo a dona da Daslu, Eliana Tranchesi, para se ficar sem resposta à pergunta: como pode alguém ser condenado a 94 anos de prisão, se a Constituição limita em 30 anos a pena máxima a ser aplicada a qualquer crime, por mais horrível que seja?

A revista Veja afirma que, “como os crimes foram cometidos ao longo dos anos, a juíza considerou cada um deles independente e, portanto, merecedor de uma pena individual. Os sete anos por descaminho, por exemplo, foram multiplicados por seis, o número de delitos desse tipo, constatados pela investigação”.

Se a M. Juíza raciocinou assim mesmo, se o escrivão da reportagem não deduziu por conta própria, temos aí uma contradição insanável: uma única pena para seis crimes independentes. O máximo seriam seis penas de sete anos, a serem cumpridas simultaneamente, não uma pena de quarenta e dois anos que nem existe na legislação penal.

Logo a condenação não é de 94 anos, como está sendo noticiado, mas a soma de penas que hão ser cumpridas ao mesmo tempo e, com toda a certeza, relaxadas pelos mesmos benefícios – escova os dentes todos os dias, não reclama do rango da cadeia, não tira meleca do nariz e não faz pipi na cama. Cumpre apenas um sexto da sentença.

Então, a dona da Daslu, como a sua pena não deve ultrapassar 18 anos, descontados os atenuantes dos agravantes, não vai passar mais de três anos inspirando-se no sol quadrado para vender urtiga como orquídea à grã-finagem de São Paulo.

Como dizia o velho Shakespeare – muito barulho por nada. Também estava enganado. Enquanto se fala da Daslu, a caterva do Congresso é poupada: “quanto menos falardes e menos negócios tiverdes, tanto melhor para vossa honestidade”, dizia o próprio Shakespeare.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Sigam-me - Jayme Copstein

Wanderley Soares, repórter dos melhores na área de Polícia e Justiça, é dono de um “achado” em sua coluna de O Sul: é aquele “sigam-me”, depois de relatar um fato, a partir do qual desenvolve sua tese.

Pois me lembrei do Wanderlei ao ler a notícia de que o deputado paranaense André Zacharow (PMDB) comanda um lobby de coleguinhas correligionários para torpedear a Medida Provisória 451, que estanca fraude legalizada, praticada por hospitais com os dinheiros do seguro obrigatório.

Os hospitais já recebem verbas do SUS para o atendimento médico, mas dão o “jeitinho” de convencer pacientes a lhes transferir o reembolso do DPVAT, o seguro obrigatório de veículos.

Dos cinco maiores hospitais que mamaram 16 milhões de reais nesta teta suculenta, três são de Curitiba, segundo notícia da revista “Veja”. André Zacharow preside a mantenedora do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba, que em 2008 abiscoitou 3 milhões 960 mil reais do DPVAT. Exerce mandato de deputado federal pelo Paraná como segundo suplente, convocado após a morte de um dos titulares, Max Rosenmann.

O primeiro suplente, Marcelo Almeida ocupa a cadeira de Reinhold Stephanes, licenciado para exercer o Ministério da Agricultura. Ou seja, quem votou em Rosenmann e Stephanes, agora tem refestelados em seu voto, Marcelo Almeida e André Zacharow.

Santa simplicidade, dirão vocês, diante de mais uma denúncia. Uma imoralidade a mais, uma esperteza a menos – que diferença faz em um parlamento onde quem não é autor é cúmplice pela omissão do seu silêncio? Pois se o voto fosse distrital puro, a indignação do eleitor bastaria para dar fim à depravação política gerada pelo voto proporcional. A esta altura, o deputado Zacharow nem seria suplente, mas se o fosse, estaria enfrentando os eleitores na Justiça, se eles não estivessem de acordo com sua sabotagem à Medida Provisória 451. Como ?

Sigam-me. No voto distrital puro, o município (para vereadores) ou o estado (para deputados estaduais e federais) são divididos em distritos. Os candidatos são exclusivos de cada distrito e debatem seu programa e fazem suas promessas olho no olho do eleitor. São escolhidos por maioria de votos.

Assim sendo, permite a melhor instituição da democracia que é a retomada do mandato. Como é fácil identificar o grupo de eleitores que o escolheu por maioria de metade mais um, legítimo também é o direito deste grupo de eleitores (metade mais um) de pedir de volta o mandato e eleger outro representante, se o vereador ou deputado descumprir promessas ou mudar a postura ética ou ideológica.

Se garantir que é honesto, que não se corrompa sob pretexto algum.

Se garantir que o Quebra-Canelas FC vai ser campeão brasileiro, que monte o time, suborne os juízes, seja lá o que for para cumprir a promessa. Caso contrário, a porta da rua é a serventia da casa.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A hora do basta - Jayme Copstein

Com o Poder Público agindo como se o país inteiro fosse feudo de políticos corruptos, que nenhuma satisfação devem a quem quer que seja, chegamos à fronteira da abjeção: ou exigimos clareza da classe política, com punição exemplar aos ladrões, ou só nos restar rasgar a Declaração de Independência e nos conformarmos com a condição de mero covil. Não há mais o que debater.

A cada fim de semana, dezenas de milhares de torcedores enchem os estádios de futebol de todo o país. Não se consegue a décima parte para montar protesto nas cidades brasileiras, sob a forma de comícios, cartazes, panelaços, mensagens pela internet, enfim para dizer que chegou a hora do “Basta!”.

Todavia são de estarrecer os números revelados pelo portal eletrônico “Contas Abertas” (http://contasabertas.uol.com.br), dos quais vamos valem como exemplo os “gastos” do Senado.

Examinem esses números. Quem puder permanecer calado, parabéns – merece os políticos que tem. Talvez, quem sabe, consiga ingressar na confraria.

Em 2007, as despesas do Senado, só com pessoal, somaram 2 bilhões mais cem milhões de reais. Em 2008, com a crise internacional se avolumando, o país cortando investimentos, a despesa cresceu 200 milhões de reais (valor equivalente bem mais do que um milhão de sacos de milho) – somou para R$ 2 bilhões, 300 milhões.

Onde vai tanto dinheiro? Cada “diretor” do Senado – são 181 no total – recebe, em média, 20 mil reais por mês. Completam a folha de pagamento 3500 servidores efetivos, 3000 assessores (cargos de confiança) e 1800 funcionários terceirizados. Ou seja, 102 funcionários por senador. Entre os cargos de confiança, até amantes de políticos já falecidos encontram osso para chupar o tutano.

Só em bufês – coquetéis e salgadinhos – a conta somou 230 mil reais. É de forrar estômago de dinossauro. Rasgar dinheiro deve ser uma das solenidades nas comemorações do Senado – 369.800 reais só para promovê-las.

Em cópias xerográficas, mais 3 milhões, 800 mil reais. O que não exclui também que os Pais da Pátria sejam os mais bem informados do planeta – um milhão e meio de reais para assinaturas de jornais e revistas – e que não se trumbicam porque muito se comunicam: 11 milhões e 100 mil reais em telefonia.

Viagens também são rubrica importante no orçamento do Senado: Entre 2007 e 2008, foram gastos 49 milhões e 400 mil reais na compra de passagens ou despesas de locomoção. Só as viagens internacionais consumiram 3 milhões e 900 mil reais em passagens.

E há a caixa preta, rotulada de despesas médico-hospitalares e odontológicas, pagos a hospitais e clínicas famosas no país: quase 60 milhões de reais em 2008. Sob pretexto de preservar a privacidade dos beneficiados, não são especificados os serviços que consumiram esta montanha de dinheiro. Tem muito silicone de madame, balançando ao vento, às custas do contribuinte.

Por aí afora. Esta é a hora, portanto, de se dizer: “Basta!”.

domingo, 22 de março de 2009

Ditos e achados -- Humberto Castello Branco

Nas sociedades subdesenvolvidas, a motivação para resolver problemas excede de muito o conhecimento técnico e a capacidade prática para escolher e aplicar soluções adequadas. Esse contexto de frustração é propício ao surgimento de dois protagonistas funestos para o sadio desenvolvimento democrático: um é o demagogo, que promete resolver todos os problemas, apelando para fórmulas mágicas que trariam soluções integrais e rápidas. Outro é o extremista, que renuncia ao penoso esforço das soluções de melhorias, que por sucessivos incrementos remedeiam os males sociais. O radicalismo ideológico simplifica barbaramente a realidade; se o problema é de luta de classes, escolhe-se uma classe eleita e eliminam-se as outras; se o problema é conter o consumo para acumular capital, escraviza-se o consumidor, transferindo todos os recursos para as mãos do Estado; se o problema é o divisionismo político, estabelece-se a ditadura do partido, e quando este perde o seu fervor, fazem-se expurgos e revoluções culturais.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Bugios, papagaios e quero-queros - Jayme Copstein

Zé Sarney, reincidente na presidência do Senado, desconversa sobre os escândalos protagonizados pelos coleguinhas do Congresso. Fazendo pastiche de seu estilo literário: tática de quero-quero em guerra de bugios. Enquanto aliados e adversários alvejam-se com o excremento que todos produziram – uns por ação, outros por omissão – ele fala em papagaios, os que Joaquim Nabuco presenteava aos anti-esclavagistas estrangeiros para engajá-los na Abolição.

Em artigo, ontem, na Folha de São Paulo, afora demonstrar que “nunquismo na história deste país” é doença contagiosa, Sarney consegue arrancar lágrimas até em frade de pedra ao se autoproclamar pioneiro na luta pela redenção da raça negra: é sua a idéia de criar a Fundação Palmares e também o sistema de cotas nas universidades e no serviço público, destinado a dar “condições de levar a raça negra a sair da miséria”.

Reconhece, porém, que a primeira não alcançou os objetivos e a segunda se politizou, perturbando o clima de convivência no Brasil, mas omite por que assim aconteceu. Não fosse a corrupção desenfreada, da qual o Senado é apenas ponta de iceberg, se os que fazem política, em vez de só ter olhos para os próprios bolsos, se concentrassem na educação do povo, os problemas ou seriam resolvidos ou teríamos todos capacidade para equacioná-los.

De nada vale imitar canto de quero-quero com tagarelice de papagaio. Por mais estridente que seja, não consegue se sobrepor à fedentina da guerra dos bugios.

Bilhete ao senador Tião Viana - Carlos Umberto Campos

Tenho acompanhado o noticiário político nacional e constato que o senhor está sendo defenestrado na mídia. O motivo é o malsinado celular do Senado emprestado por V. Exa. (este pronome de tratamento tem que ser repensado) à sua filha que teria viajado ao México, com o povo pagando a conta (R$ 10.000,00), segundo divulgado pela mídia.

A explicação que o senhor deu é que fez o que fez por ser um pai preocupado. Ouvi hoje no rádio, aqui no RS, a interpretação que o jornalista deu à sua desculpa (que cá entre nós é risível/burlesca). Disse ele que seria como se o senhor tivesse falado assim: "Eu tenho preocupação como pai e vocês contribuintes que paguem a conta. Agora, se vocês tiverem preocupação com seus filhos que paguem a conta vocês mesmos."

Parabéns o senhor só receberá de mim no dia em que tratar a coisa pública com mais seriedade e deixar de contribuir (oferecendo argumentos) àqueles que falam em FECHAR O SENADO, porque não tem sentido o sistema bicameral, que é caro/desnecessário/deficiente.

Para finalizar gostaria que o senhor se manifestasse sobre as seguintes inquietações que tenho:

- o que é pior: uma ditadura ou uma falsa democracia?

- uma falsa democracia não a mesma coisa do que uma ditadura branca?

- o nosso voto em uma falsa democracia tem algum valor? Senador: faça só o melhor para o Brasil. É para isto que lhe outorgaram um mandato!”

Eu quero a minha diretoria - Miguezim da Princesa

(Contribuição de Guilherme Sociuas Villela)
I
Senadores da República,
Venho relatar meu tormento:
Trabalhei a vida inteira,
Tive um fusca e um jumento,
Mas não consigo juntar
Dinheiro para comprar
Uma casa ou apartamento.

II
Depois de muito lutar,
Vim parar na capital,
Onde tudo é muito caro
Na especulação fatal.
Por mais que tenha apelado,
Difícil é ser contemplado
Com imóvel funcional.

III
Trabalho até altas horas
Da vista se irritar,
Da perna ficar dormente,
Do cabelo arrepiar,
Da coisa mudar de tom,
Mas hora-extra que é bom
Ninguém vem pra me pagar.

IV
Quando vou à Paraíba
Num baú a chacoalhar,
Não aparece um cristão
Disposto a me ajudar
Com uma passagem de avião
Pra melhorar meu padrão
E o cansaço aliviar.

V
Princesa é como no México:
Esse celular normal,
Que a gente compra nas lojas,
Quando pega, pega mal.
Assim quando lá eu for,
Vou pedir ao senador
Um celular funcional.

VI
Quero ingressar no Senado,
Ser funcionário exemplar,
Tomar conta de garagem,
Limpar o chão, capinar,
Dirigir escadaria,
Mas depois, no fim do dia,
Degustar um caviar.

VII
Eu quero ser diretor
Para dar nó de gravata,
Ficar enrolando bufa
Ou filmando passeata,
Ganhar mais que senador,
Passear no corredor
Só espalhando bravata.

VIII
Eu quero ser diretor
Montado na brilhantina,
Cheio de ajuda de custo
Para botar gasolina
No posto do meu irmão
Que fica na contramão
Da ética que me arruína.

IX
Diretor eu quero ser
Para um assunto retado:
Passar o dia flanando
Atrás de rabo assanhado
De piriguetes sabidas
Que se fingem de perdidas
No corredor do Senado.

X
Eu quero ser diretor,
Bem nos conformes da lei.
Só que existe um problema:
A lotação eu não sei.
Eu topo qualquer lugar,
Até mesmo pra escovar
O bigode do Sarney.

terça-feira, 17 de março de 2009

O padroeiro do eleitor - Jayme Copstein

Não é de hoje que os leitores perguntam “Quando vai terminar tudo isso”, referindo-se à esbórnia em que se transformou o nosso Congresso, com a falta de escrúpulos de uns e a cumplicidade de outros, escondendo a própria imoralidade em conveniente silêncio.

A resposta mais correta, com a contundência da verdade, foi publicada em dezembro de 2006, em um jornal paulista: “Tudo vai terminar no dia em que os que perguntam votarem com mais critério e consciência”. Na ocasião, o país fervia indignado pelo assalto ao Tesouro que as mesas do Senado e da Câmara Federal haviam praticado.

Muito escândalos depois, o país segue fervendo de indignação, os congressistas continuam assaltando o Tesouro e outra pergunta substitui a primeira: quando o eleitor brasileiro vai votar com critério e consciência para terminar com tudo isso?

A resposta também tem a contundência da verdade – no dia de São Nunca. Porque este é o seu santo padroeiro.

sábado, 14 de março de 2009

Ficções brasileiras - Jayme Copstein

A nação se mostra perplexa diante do assalto aos dinheiros públicos, perpetrado por funcionários do Senado, abiscoitando horas extras em período de férias.

Que novidade há nesse golpe, tão velho quanto o conto do vigário? Já houve tempo em que bastava passar cinco minutos em cargo de confiança para incorporar a gratificação da função.

Se alguém cavoucar a fundo as espertezas registradas pela história do país vai encontrar em regulamentos portuários dos anos 50 do século passado, a proibição de admitir novos estivadores antes que os turnos de trabalho somassem mil horas mensais.

A alguém com todos os parafusos no lugar, bastaria multiplicar 30 ou 31 dias por 24 horas para saber que um mês, no máximo, pode ter 720 horas ou 744 horas. Neste país palavroso pela própria natureza, que importa a aritmética, se a gente sempre tem “jeito” para tudo? Inventou-se o “tempo ficto”, tempo fictício, que não é medido pelo relógio, mas só existe para calcular vantagens.

Para “dar jeito” na proibição foi criada outra categoria fictícia, a dos “bagrinhos”, substitutos dos estivadores titulares, chamados para preencher eventuais faltas ou quando o aumento da carga e descarga dos portos exigia mais mão de obra. Na continuação, os titulares criaram um feudo. Não trabalhavam – ninguém lhes cobrava as faltas – e alugavam sua vaga aos bagrinhos.

O regulamento foi revogado ao tempo de Castello Branco, mas o conceito de tempo ficto restou pendurado nos costumes e foi estendido à previdência social, para ser contado como tempo de contribuição sem haver contribuição.

Funcionários burocráticos das empresas de mineração conseguiram, apesar das delícias do ar condicionado de seus escritórios, o mesmo adicional de insalubridade e a mesma contagem de tempo “ficto” dos mineiros que empedram os pulmões debaixo da terra. Um contínuo, tendo ingressado na mineradora com 15 anos de idade, aos 30 se aposentou, com 35 anos de “trabalho”. Ou seja; já estava “trabalhando antes mesmo que as gônadas de seu pai tivessem fabricado o espermatozóide que o gerou.

Não há, pois, razão para tanta alaúza por que funcionários do Senado gadunharam horas extras – tempo ficto, minha gente, como diria Collor de Mello, brasileiras e brasileiros, como diria Zé Sarney, povos e “povas” como só falta alguém dizer.

Há uma historinha antiga, parecida, envolvendo os compositores Benedito Lacerda e Humberto Porto, quando emplacaram a marcha “A jardineira” como o maior sucesso do Carnaval de 1939.

Era plágio descarado da canção que, em 1906, Candinho das Laranjeiras fizera para seu bloco Flor ou Filhos da Primavera e que todo mundo conhecia. Foi um escândalo. Confrontado com o plágio, Benedito Lacerda cunhou a frase lapidar:

“Se a gente soubesse que ia dar tanto rolo, a gente não tinha feito.”
Já contei esta história, mas vale repeti-la porque, tão logo estourou o fuzuê das horas extras do Senado, pra lá de fictas, o novo secretário da Casa, Heráclito Fortes (DEM-PI) apelou aos jornalistas: "Parem com isso. A coisa vai chegar aonde?"

À cadeia, lugar pr’a lá de certo, com toda a certeza não, porque, graças ao próprio Congresso, este é o país da impunidade.

Por sua vez, o erudito e impoluto Zé Sarney, presidente do Senado, desconversou, fazendo pequeno discurso sobre responsabilidades e falando na devolução do dinheiro. Só falando, mas não exigindo.

Em outras palavras, Fortes e Sarney repetem Benedito Lacerda: “Se a gente soubesse que ia dar tanto rolo, a gente não tinha feito.”

Os patriotas - Jayme Copstein

Fernando Collor de Melo está de volta e aprova no Senado a moralização das Agências Reguladoras, proibindo nomeações de correligionários (alheios, com toda a certeza) e endurecendo a fiscalizar do PAC. Gregos e troianos lhe cobram as travessuras de seus tempos de presidente. A palavra está bem empregada. Mordidas de PC Farias eram bolinha de gude, comparadas com as grandes falcatruas que os sucessores aperfeiçoaram.

A melhor teoria diz que Collor foi despejado do Planalto não saber as quatro operações. Aprendeu a multiplicar o patrimônio, mas não a dividi-lo. No mar da política brasileira, quem não abre a mão, não nada – afoga-se, segundo o grande patriota D.K. Omeu.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Está faltando um inspetor - Jayme Copstein

Yeda Crusius tem razão quando se queixa de que o desmentido das acusações, imputadas por líderes gaúchos do PSOL, não mereceram o mesmo destaque no noticiário.

Se a veracidade das denúncias formuladas era hipótese consistente, não havia como divulgá-las fora das manchetes. Mas se apenas a busca da verdade estava em jogo, não há outro lugar também para a retratação, sob pena de tudo sugerir o trucidamento político da governadora.

Como a assunto vai terminar é um enigma. Provavelmente em nada porque a impunidade é o destino de todas as transgressões neste país.

No rescaldo, a tragédia do ex-representante do governo gaúcho, Marcelo Cavalcante que aparentemente se suicidou em Brasília, premido por dívidas. Nada que a perícia médico-legal não possa esclarecer. Ninguém é jogado de uma ponte sem que seu corpo fique marcado pela violência de quem o coagiu.

Há muitos rumores em torno do caso sem nenhum pé na realidade – prêmio da colaboração em investigações policiais é imunidade, não o dinheiro para resolver aperturas financeiras.

Tudo isso faz lembrar uma peça do britânico J. B. Priestley – “Está lá fora um inspetor” – cujos personagens confrontados pelo remorso, representado por um policial fictício, admitem sua culpa no suicídio da operária de uma fábrica da família.

A peça é um libelo contra a ganância e a indiferença do capitalismo em relação ao destino do resto da humanidade, que em nada difere, nos métodos e na voracidade pelo poder, do fundamentalismo cego que só enxerga seus próprios objetivos.

Falte entre nós alguém descompromissado com dogmas, como o também britânico George Orwell, para trazer a esta tragédia o inspetor que é a nossa consciência, principalmente dos que para ela contribuem com a cumplicidade do seu silêncio.

terça-feira, 10 de março de 2009

Acredite se quiser - Jayme Copstein

Com bastante freqüência lêem-se nos jornais alusões às “entidades da sociedade civil organizada”.

É nome de muita pompa e ainda mais circunstâncias. Basta observar as ruas de qualquer das nossas cidades para se ter a medida de organização desta sociedade. Ela consegue superar todas as circunstâncias quando uma de suas “entidades” postula no Supremo Tribunal Federal uma súmula vinculante para declarar a “inconstitucionalidade da prisão civil do depositário infiel”.

Trocando em miúdos: liberdade de ação e impunidade a uma das muitas categorias de gatunos que infestam o país.

Há quem discorde da necessidade de tal súmula vinculante, argumentando com o “bis in idem” do direito tributário. A expressão latina literalmente significa “duas vezes do mesmo”, mas a tradução melhor acabada seria “mais do mesmo”, principalmente no caso em questão: como a impunidade no país já esgotou todos os limites, mais dela própria se acrescenta a si mesma.
Segundo os defensores da tese do “bis”, que o povo nas ruas traduz por “farinha do mesmo saco”, já não há mais o que acrescentar à libertinagem jurídica praticada no país, desde que se tenham meios de pagar um advogado esperto. No máximo o que cabe é súmula vinculante, assegurando a impunidade ampla, geral e irrestrita também ao ladrão de galinhas. Sua carência de recursos para pagar defensores já é proverbial. As penosas hoje não valem pagam sequer passe de ônibus.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Velhas cantigas - Jayme Copstein

“As pressões que o PMDB, capitaneado por José Sarney, Renan Calheiros, Michel Temer e outros menos votados, ameaçam desembocar em crise política. É estranho, tanto a vocação do sr. José Sarney, que parece estar sempre em qualquer rampa por onde a vida do país deslize para o atraso, quanto o poder que ele detém dentro do parlamento, a ponto de tornar refém o governo da República. Ocupado com as tricas e futricas do apoio deste PMDB, descaradamente na base do toma lá, dá cá, o governo do sr. Luiz Inácio Lula da Silva parece imobilizado e estático, e com isso descontentando outros aliados, à espera do cumprimento de promessas, utilizadas como engodo para mantê-los bem comportados”.

Sabem de quem é este texto? Deste colunista. Foi escrito em 14 de janeiro de 2004 e é reproduzido agora porque o leitor Mário Borba, de Porto Alegre, pergunta por que ele não tem se ocupado com mais profundidade do fandango em que os personagens citados transformaram a vida pública brasileira.

A razão é simples: estar falando como se pregasse no deserto. Em janeiro de 2008, em comentário de estreia na Rádio Pampa, falei a Marne Barcelos que, se pegasse tudo o que já havia escrito sobre a malandragem e corrupção na política, bastaria substituir os que morreram por outros “vivos”. O resto poderia ficar tal como foi redigido, palavras por palavra, vírgula por vírgula.

Confesso que há exagero nessa afirmativa. Passados cinco anos desse comentário, sequer o nome dos “vivos” é necessário mudar.

“Em nome do bom senso e para preservar vidas inocentes é necessário que se contenham malucos messiânicos, do tipo João Pedro Stédile, ou Bruno Maranhão. Faça-se com urgência, antes que ocorra uma tragédia semelhante ou até pior que a de Carajás, quando a irresponsabilidade criminosa de líderes do MST jogou uma massa de pobres coitados conta a Polícia Militar”.

O texto (“Antes que seja tarde”) é de 2006. Acrescente-se apenas que militantes do MST assassinaram quatro seguranças de uma fazenda em Pernambuco.

Poderia seguir nesta trilha até o infinito. Nunca contei quantos comentários escrevi sobre a política brasileira, mas apenas reproduzo o parágrafo final de “O comício dos deserdados”, de 2005:

“A sociedade brasileira é permanente exercício de hipocrisia dissimulado na eloquência de um comício de deserdados. Eles são convocados para bloquear estradas, fechar ruas, destruir patrimônio público, gritar palavras de ordem e ouvir discursos de privilegiados – o advogado, o médico, o jornalista, o juiz, o dentista, o economista, o empresário, o contabilista, o burocrata, o artista da novela, as senhoras do chá das cinco, os jovens dos bares da moda. Os deserdados continuam cada vez mais deserdados”.

Que mais se pode dizer?

quinta-feira, 5 de março de 2009

Por falar em vexames.. - Jayme Copstein.

Renan Calheiros é um dos bravos moralizadores da República. Encarnou o personagem ao se engajou de corpo e alma na cassação de Collor de Mello porque dele não conseguiu apoio para se eleger governador das Alagoas.

Calheiros acaba de eleger o mesmíssimo Collor de Mello para a presidência da Comissão de Infraestrutura do Senado, derrotando Ideli Salvatti, candidata de Luiz Inácio Lula da Silva, de quem é aliado muito leal. Tudo, naturalmente, sob a tutela de José Sarney, aliado também lealíssimo de Lula, pelo qual já foi chamado de “grileiro do Maranhão”.

Há quem manifeste temores de que Collor esteja retomando a carreira. Se for, que diferença faz? Se corrupção fosse futebol, pelo que cometeu quando presidente Collor só teria lugar em peladas de solteiros contra casados, antes do tradicional churrasco regado a cerveja. Não se surpreendam se, um dia, for convidado de honra da Granja do Torto.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Mau augúrio - Jayme Copstein

Não é bom augúrio ao PSOL do Rio Grande do Sul a negativa formal do vice-governador Paulo Feijó, de qualquer relação com as denúncias de corrupção, formuladas contra a governadora Yeda Crusius.

No primeiro noticiário a respeito, o nome de Feijó foi citado de refilão como uma das fontes. Com toda a certeza, tratou-se de alusão – mal-interpretada – ao que ele dissera, quando teve o seu próprio embate com a governadora.

O presidente do DEM-RS, Onyx Lorenzoni, para enfatizar a desvinculação com as denúncias, esclareceu que a ruptura da coligação com a governadora teve origem na recusa do DEM, de “enganar os eleitores gaúchos no episódio da proposta de aumento do ICMS.”

Lorenzoni não deixou de fora o ressentimento do partido por Yeda ter proposto, após o primeiro turno da eleição de 2006, alijar Feijó da chapa majoritária para permitir aliança com legenda mais forte.

No frigir dos ovos, o PSOL acabou solitário na empreitada. Só tem a companhia do PT, do qual se separou para constituir partido independente, alegando corrupção tão grave igual à levantada contra o Piratini, porém até mais abrangente.