Com o Poder Público agindo como se o país inteiro fosse feudo de políticos corruptos, que nenhuma satisfação devem a quem quer que seja, chegamos à fronteira da abjeção: ou exigimos clareza da classe política, com punição exemplar aos ladrões, ou só nos restar rasgar a Declaração de Independência e nos conformarmos com a condição de mero covil. Não há mais o que debater.
A cada fim de semana, dezenas de milhares de torcedores enchem os estádios de futebol de todo o país. Não se consegue a décima parte para montar protesto nas cidades brasileiras, sob a forma de comícios, cartazes, panelaços, mensagens pela internet, enfim para dizer que chegou a hora do “Basta!”.
Todavia são de estarrecer os números revelados pelo portal eletrônico “Contas Abertas” (http://contasabertas.uol.com.br), dos quais vamos valem como exemplo os “gastos” do Senado.
Examinem esses números. Quem puder permanecer calado, parabéns – merece os políticos que tem. Talvez, quem sabe, consiga ingressar na confraria.
Em 2007, as despesas do Senado, só com pessoal, somaram 2 bilhões mais cem milhões de reais. Em 2008, com a crise internacional se avolumando, o país cortando investimentos, a despesa cresceu 200 milhões de reais (valor equivalente bem mais do que um milhão de sacos de milho) – somou para R$ 2 bilhões, 300 milhões.
Onde vai tanto dinheiro? Cada “diretor” do Senado – são 181 no total – recebe, em média, 20 mil reais por mês. Completam a folha de pagamento 3500 servidores efetivos, 3000 assessores (cargos de confiança) e 1800 funcionários terceirizados. Ou seja, 102 funcionários por senador. Entre os cargos de confiança, até amantes de políticos já falecidos encontram osso para chupar o tutano.
Só em bufês – coquetéis e salgadinhos – a conta somou 230 mil reais. É de forrar estômago de dinossauro. Rasgar dinheiro deve ser uma das solenidades nas comemorações do Senado – 369.800 reais só para promovê-las.
Em cópias xerográficas, mais 3 milhões, 800 mil reais. O que não exclui também que os Pais da Pátria sejam os mais bem informados do planeta – um milhão e meio de reais para assinaturas de jornais e revistas – e que não se trumbicam porque muito se comunicam: 11 milhões e 100 mil reais em telefonia.
Viagens também são rubrica importante no orçamento do Senado: Entre 2007 e 2008, foram gastos 49 milhões e 400 mil reais na compra de passagens ou despesas de locomoção. Só as viagens internacionais consumiram 3 milhões e 900 mil reais em passagens.
E há a caixa preta, rotulada de despesas médico-hospitalares e odontológicas, pagos a hospitais e clínicas famosas no país: quase 60 milhões de reais em 2008. Sob pretexto de preservar a privacidade dos beneficiados, não são especificados os serviços que consumiram esta montanha de dinheiro. Tem muito silicone de madame, balançando ao vento, às custas do contribuinte.
Por aí afora. Esta é a hora, portanto, de se dizer: “Basta!”.
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segunda-feira, 23 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
Bugios, papagaios e quero-queros - Jayme Copstein
Zé Sarney, reincidente na presidência do Senado, desconversa sobre os escândalos protagonizados pelos coleguinhas do Congresso. Fazendo pastiche de seu estilo literário: tática de quero-quero em guerra de bugios. Enquanto aliados e adversários alvejam-se com o excremento que todos produziram – uns por ação, outros por omissão – ele fala em papagaios, os que Joaquim Nabuco presenteava aos anti-esclavagistas estrangeiros para engajá-los na Abolição.
Em artigo, ontem, na Folha de São Paulo, afora demonstrar que “nunquismo na história deste país” é doença contagiosa, Sarney consegue arrancar lágrimas até em frade de pedra ao se autoproclamar pioneiro na luta pela redenção da raça negra: é sua a idéia de criar a Fundação Palmares e também o sistema de cotas nas universidades e no serviço público, destinado a dar “condições de levar a raça negra a sair da miséria”.
Reconhece, porém, que a primeira não alcançou os objetivos e a segunda se politizou, perturbando o clima de convivência no Brasil, mas omite por que assim aconteceu. Não fosse a corrupção desenfreada, da qual o Senado é apenas ponta de iceberg, se os que fazem política, em vez de só ter olhos para os próprios bolsos, se concentrassem na educação do povo, os problemas ou seriam resolvidos ou teríamos todos capacidade para equacioná-los.
De nada vale imitar canto de quero-quero com tagarelice de papagaio. Por mais estridente que seja, não consegue se sobrepor à fedentina da guerra dos bugios.
Em artigo, ontem, na Folha de São Paulo, afora demonstrar que “nunquismo na história deste país” é doença contagiosa, Sarney consegue arrancar lágrimas até em frade de pedra ao se autoproclamar pioneiro na luta pela redenção da raça negra: é sua a idéia de criar a Fundação Palmares e também o sistema de cotas nas universidades e no serviço público, destinado a dar “condições de levar a raça negra a sair da miséria”.
Reconhece, porém, que a primeira não alcançou os objetivos e a segunda se politizou, perturbando o clima de convivência no Brasil, mas omite por que assim aconteceu. Não fosse a corrupção desenfreada, da qual o Senado é apenas ponta de iceberg, se os que fazem política, em vez de só ter olhos para os próprios bolsos, se concentrassem na educação do povo, os problemas ou seriam resolvidos ou teríamos todos capacidade para equacioná-los.
De nada vale imitar canto de quero-quero com tagarelice de papagaio. Por mais estridente que seja, não consegue se sobrepor à fedentina da guerra dos bugios.
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Bilhete ao senador Tião Viana - Carlos Umberto Campos
Tenho acompanhado o noticiário político nacional e constato que o senhor está sendo defenestrado na mídia. O motivo é o malsinado celular do Senado emprestado por V. Exa. (este pronome de tratamento tem que ser repensado) à sua filha que teria viajado ao México, com o povo pagando a conta (R$ 10.000,00), segundo divulgado pela mídia.
A explicação que o senhor deu é que fez o que fez por ser um pai preocupado. Ouvi hoje no rádio, aqui no RS, a interpretação que o jornalista deu à sua desculpa (que cá entre nós é risível/burlesca). Disse ele que seria como se o senhor tivesse falado assim: "Eu tenho preocupação como pai e vocês contribuintes que paguem a conta. Agora, se vocês tiverem preocupação com seus filhos que paguem a conta vocês mesmos."
Parabéns o senhor só receberá de mim no dia em que tratar a coisa pública com mais seriedade e deixar de contribuir (oferecendo argumentos) àqueles que falam em FECHAR O SENADO, porque não tem sentido o sistema bicameral, que é caro/desnecessário/deficiente.
Para finalizar gostaria que o senhor se manifestasse sobre as seguintes inquietações que tenho:
- o que é pior: uma ditadura ou uma falsa democracia?
- uma falsa democracia não a mesma coisa do que uma ditadura branca?
- o nosso voto em uma falsa democracia tem algum valor? Senador: faça só o melhor para o Brasil. É para isto que lhe outorgaram um mandato!”
A explicação que o senhor deu é que fez o que fez por ser um pai preocupado. Ouvi hoje no rádio, aqui no RS, a interpretação que o jornalista deu à sua desculpa (que cá entre nós é risível/burlesca). Disse ele que seria como se o senhor tivesse falado assim: "Eu tenho preocupação como pai e vocês contribuintes que paguem a conta. Agora, se vocês tiverem preocupação com seus filhos que paguem a conta vocês mesmos."
Parabéns o senhor só receberá de mim no dia em que tratar a coisa pública com mais seriedade e deixar de contribuir (oferecendo argumentos) àqueles que falam em FECHAR O SENADO, porque não tem sentido o sistema bicameral, que é caro/desnecessário/deficiente.
Para finalizar gostaria que o senhor se manifestasse sobre as seguintes inquietações que tenho:
- o que é pior: uma ditadura ou uma falsa democracia?
- uma falsa democracia não a mesma coisa do que uma ditadura branca?
- o nosso voto em uma falsa democracia tem algum valor? Senador: faça só o melhor para o Brasil. É para isto que lhe outorgaram um mandato!”
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terça-feira, 17 de março de 2009
O padroeiro do eleitor - Jayme Copstein
Não é de hoje que os leitores perguntam “Quando vai terminar tudo isso”, referindo-se à esbórnia em que se transformou o nosso Congresso, com a falta de escrúpulos de uns e a cumplicidade de outros, escondendo a própria imoralidade em conveniente silêncio.
A resposta mais correta, com a contundência da verdade, foi publicada em dezembro de 2006, em um jornal paulista: “Tudo vai terminar no dia em que os que perguntam votarem com mais critério e consciência”. Na ocasião, o país fervia indignado pelo assalto ao Tesouro que as mesas do Senado e da Câmara Federal haviam praticado.
Muito escândalos depois, o país segue fervendo de indignação, os congressistas continuam assaltando o Tesouro e outra pergunta substitui a primeira: quando o eleitor brasileiro vai votar com critério e consciência para terminar com tudo isso?
A resposta também tem a contundência da verdade – no dia de São Nunca. Porque este é o seu santo padroeiro.
A resposta mais correta, com a contundência da verdade, foi publicada em dezembro de 2006, em um jornal paulista: “Tudo vai terminar no dia em que os que perguntam votarem com mais critério e consciência”. Na ocasião, o país fervia indignado pelo assalto ao Tesouro que as mesas do Senado e da Câmara Federal haviam praticado.
Muito escândalos depois, o país segue fervendo de indignação, os congressistas continuam assaltando o Tesouro e outra pergunta substitui a primeira: quando o eleitor brasileiro vai votar com critério e consciência para terminar com tudo isso?
A resposta também tem a contundência da verdade – no dia de São Nunca. Porque este é o seu santo padroeiro.
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sábado, 14 de março de 2009
Ficções brasileiras - Jayme Copstein
A nação se mostra perplexa diante do assalto aos dinheiros públicos, perpetrado por funcionários do Senado, abiscoitando horas extras em período de férias.
Que novidade há nesse golpe, tão velho quanto o conto do vigário? Já houve tempo em que bastava passar cinco minutos em cargo de confiança para incorporar a gratificação da função.
Se alguém cavoucar a fundo as espertezas registradas pela história do país vai encontrar em regulamentos portuários dos anos 50 do século passado, a proibição de admitir novos estivadores antes que os turnos de trabalho somassem mil horas mensais.
A alguém com todos os parafusos no lugar, bastaria multiplicar 30 ou 31 dias por 24 horas para saber que um mês, no máximo, pode ter 720 horas ou 744 horas. Neste país palavroso pela própria natureza, que importa a aritmética, se a gente sempre tem “jeito” para tudo? Inventou-se o “tempo ficto”, tempo fictício, que não é medido pelo relógio, mas só existe para calcular vantagens.
Para “dar jeito” na proibição foi criada outra categoria fictícia, a dos “bagrinhos”, substitutos dos estivadores titulares, chamados para preencher eventuais faltas ou quando o aumento da carga e descarga dos portos exigia mais mão de obra. Na continuação, os titulares criaram um feudo. Não trabalhavam – ninguém lhes cobrava as faltas – e alugavam sua vaga aos bagrinhos.
O regulamento foi revogado ao tempo de Castello Branco, mas o conceito de tempo ficto restou pendurado nos costumes e foi estendido à previdência social, para ser contado como tempo de contribuição sem haver contribuição.
Funcionários burocráticos das empresas de mineração conseguiram, apesar das delícias do ar condicionado de seus escritórios, o mesmo adicional de insalubridade e a mesma contagem de tempo “ficto” dos mineiros que empedram os pulmões debaixo da terra. Um contínuo, tendo ingressado na mineradora com 15 anos de idade, aos 30 se aposentou, com 35 anos de “trabalho”. Ou seja; já estava “trabalhando antes mesmo que as gônadas de seu pai tivessem fabricado o espermatozóide que o gerou.
Não há, pois, razão para tanta alaúza por que funcionários do Senado gadunharam horas extras – tempo ficto, minha gente, como diria Collor de Mello, brasileiras e brasileiros, como diria Zé Sarney, povos e “povas” como só falta alguém dizer.
Há uma historinha antiga, parecida, envolvendo os compositores Benedito Lacerda e Humberto Porto, quando emplacaram a marcha “A jardineira” como o maior sucesso do Carnaval de 1939.
Era plágio descarado da canção que, em 1906, Candinho das Laranjeiras fizera para seu bloco Flor ou Filhos da Primavera e que todo mundo conhecia. Foi um escândalo. Confrontado com o plágio, Benedito Lacerda cunhou a frase lapidar:
“Se a gente soubesse que ia dar tanto rolo, a gente não tinha feito.”
Já contei esta história, mas vale repeti-la porque, tão logo estourou o fuzuê das horas extras do Senado, pra lá de fictas, o novo secretário da Casa, Heráclito Fortes (DEM-PI) apelou aos jornalistas: "Parem com isso. A coisa vai chegar aonde?"
À cadeia, lugar pr’a lá de certo, com toda a certeza não, porque, graças ao próprio Congresso, este é o país da impunidade.
Por sua vez, o erudito e impoluto Zé Sarney, presidente do Senado, desconversou, fazendo pequeno discurso sobre responsabilidades e falando na devolução do dinheiro. Só falando, mas não exigindo.
Em outras palavras, Fortes e Sarney repetem Benedito Lacerda: “Se a gente soubesse que ia dar tanto rolo, a gente não tinha feito.”
Que novidade há nesse golpe, tão velho quanto o conto do vigário? Já houve tempo em que bastava passar cinco minutos em cargo de confiança para incorporar a gratificação da função.
Se alguém cavoucar a fundo as espertezas registradas pela história do país vai encontrar em regulamentos portuários dos anos 50 do século passado, a proibição de admitir novos estivadores antes que os turnos de trabalho somassem mil horas mensais.
A alguém com todos os parafusos no lugar, bastaria multiplicar 30 ou 31 dias por 24 horas para saber que um mês, no máximo, pode ter 720 horas ou 744 horas. Neste país palavroso pela própria natureza, que importa a aritmética, se a gente sempre tem “jeito” para tudo? Inventou-se o “tempo ficto”, tempo fictício, que não é medido pelo relógio, mas só existe para calcular vantagens.
Para “dar jeito” na proibição foi criada outra categoria fictícia, a dos “bagrinhos”, substitutos dos estivadores titulares, chamados para preencher eventuais faltas ou quando o aumento da carga e descarga dos portos exigia mais mão de obra. Na continuação, os titulares criaram um feudo. Não trabalhavam – ninguém lhes cobrava as faltas – e alugavam sua vaga aos bagrinhos.
O regulamento foi revogado ao tempo de Castello Branco, mas o conceito de tempo ficto restou pendurado nos costumes e foi estendido à previdência social, para ser contado como tempo de contribuição sem haver contribuição.
Funcionários burocráticos das empresas de mineração conseguiram, apesar das delícias do ar condicionado de seus escritórios, o mesmo adicional de insalubridade e a mesma contagem de tempo “ficto” dos mineiros que empedram os pulmões debaixo da terra. Um contínuo, tendo ingressado na mineradora com 15 anos de idade, aos 30 se aposentou, com 35 anos de “trabalho”. Ou seja; já estava “trabalhando antes mesmo que as gônadas de seu pai tivessem fabricado o espermatozóide que o gerou.
Não há, pois, razão para tanta alaúza por que funcionários do Senado gadunharam horas extras – tempo ficto, minha gente, como diria Collor de Mello, brasileiras e brasileiros, como diria Zé Sarney, povos e “povas” como só falta alguém dizer.
Há uma historinha antiga, parecida, envolvendo os compositores Benedito Lacerda e Humberto Porto, quando emplacaram a marcha “A jardineira” como o maior sucesso do Carnaval de 1939.
Era plágio descarado da canção que, em 1906, Candinho das Laranjeiras fizera para seu bloco Flor ou Filhos da Primavera e que todo mundo conhecia. Foi um escândalo. Confrontado com o plágio, Benedito Lacerda cunhou a frase lapidar:
“Se a gente soubesse que ia dar tanto rolo, a gente não tinha feito.”
Já contei esta história, mas vale repeti-la porque, tão logo estourou o fuzuê das horas extras do Senado, pra lá de fictas, o novo secretário da Casa, Heráclito Fortes (DEM-PI) apelou aos jornalistas: "Parem com isso. A coisa vai chegar aonde?"
À cadeia, lugar pr’a lá de certo, com toda a certeza não, porque, graças ao próprio Congresso, este é o país da impunidade.
Por sua vez, o erudito e impoluto Zé Sarney, presidente do Senado, desconversou, fazendo pequeno discurso sobre responsabilidades e falando na devolução do dinheiro. Só falando, mas não exigindo.
Em outras palavras, Fortes e Sarney repetem Benedito Lacerda: “Se a gente soubesse que ia dar tanto rolo, a gente não tinha feito.”
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