sexta-feira, 30 de julho de 2010

Curiosidades – Jayme Copstein


 

O noticiário sobre a corrupção no Brasil, envolvendo milhões de reais, tornou-se tão banal que o brasileiro acabou perdendo o entendimento do que seja um milhão.

O que significa realmente um milhão? Se alguém contasse em voz alta, 24 horas por dia, sem parar – 1.... 2.... 3.... até um milhão – de maneira a dizer um algarismo ou número por segundo, gastaria nada menos que 12 dias para terminar a enumeração.

O passo normal de uma pessoa, contando do calcanhar do pé que fica para trás à ponta dos dedos do pé que avança, mede em torno de 75 centímetros.

Significa que, se alguém se dispuser a dar um milhão de passos, quando acabar terá percorrido nada menos do que 750 quilômetros.

O exemplo mais contundente refere-se às moedas de um real que manipulamos todos os dias. Têm espessura de dois milímetros (cálculo arredondado para menos, para facilitar o cálculo). Se conseguíssemos empilhar um milhão de moedas de um real, uma em cima da outra, formaríamos uma coluna de 2 quilômetros de altura, ou seja, um edifício de 10 andares.

O dinheiro dos mortos

Mas já que foi referido o dinheiro dos "vivos", falemos também no dinheiro dos mortos – sem aspas. Ainda persiste o hábito, em pequenas cidades do interior, de colocar moedas nos olhos dos defuntos, sob o pretexto de manter suas pálpebras cerradas.

O costume foi herdado dos portugueses, nos tempos coloniais, e mudou com o correr dos anos. Primitivamente se colocava um pão e uma moeda debaixo da cabeça do morto. O pão era para mostrar que não morrera de fome. O dinheiro, para entregar a São Pedro, a fim de que abrisse as portas do céu.

Os portugueses não inventaram esta superstição. Foi herdada dos gregos que acreditavam em um rio subterrâneo,o Aqueronte (Rio das Dores)m separando o mundo dos vivos do mundo do além. Um cão de três cabeças, Cérbero, guardava a porta do reino da morte.

Os gregos punham moedas na boca do defunto e um bolo nas suas mãos. As moedas serviam para pagar Caronte, o barqueiro que fazia a travessia do Aqueronte. O bolo era para acalmar a fúria de Cérbero.

Como a corrupção é tão antiga quanto o homem, as famílias mais ricas enchiam a boca do finado de moedas, na suposição de Caronte o faria passar antes dos demais defuntos.

Com o correr dos tempos, a religião dos gregos, povoada de deuses e deusas muito humanos, foram cedendo lugar a outras crenças. Mas as superstições ficaram, com algumas modificações no ritual e profunda transformação nas justificativas.

A linguagem dos leques

Não se sabe ao certo quem inventou o leque, mas foram os italianos que o introduziram na França no século 17. A partir de então, espalhou-se por toda a Europa e o resto do mundo, predominando majestoso até ser substituído pelos prosaicos ventiladores e condicionadores de ar.

Durante seu reinado, os leques desempenharam papel importante na etiqueta social. Eram instrumento de comunicação secreta entre namorados, na época em que a moral não permitia momentos de intimidade, mesmo que fosse só verbal, entre jovens do sexo oposto.

Em um baile, se um homem olhava uma mulher e ela se abanasse, movendo lentamente seu leque, isso significava – "Você me é completamente indiferente".

Se a moça surgisse à janela, abanando-se, ela estaria dizendo ao namorado que logo iria sair à rua. Se apenas exibisse o leque fechado, era um aviso: – "Não saio hoje".

Se a jovem agarrasse o leque pelo meio, era sinal de alerta. Queria dizer: "Mamãe descobriu tudo. Cuidado!"


 


 

 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Fim de uma história – Jayme Copstein

O calendário histórico assinala como efeméride na data de amanhã, 31 de julho, a volta de Pedro Álvares Cabral a Lisboa em 1501, encerrando a viagem que resultou no Descobrimento do Brasil. Se a partida do Tejo, em 8 de março do ano anterior fora majestosa, com o próprio Rei D. Manuel indo entregar a Cabral a bandeira de Cristo, o regresso da expedição foi sombrio.

Festa, nenhuma. Glórias, muito menos. Pelo contrário, Pedro Álvares Cabral foi relegado ao ostracismo, perdendo, inclusive, o comando de nova expedição projetada para 1502 e que de fato partiu, mas com Vasco da Gama.

Nenhuma explicação clara pôde ser oferecida, até o presente, para a mudança de atitude da Coroa Portuguesa em relação ao Descobridor que lhe tinha acrescentado tanto território. As versões são muitas, indo desde a recusa do próprio Cabral em aceitar um comando cuja autoridade seria dividida com outros capitães, até a ingratidão de D. Manuel.

A versão mais provável, mas pela qual os historiadores não mostram apego, é apenas sugerida por Jaime Cortesão, ao atribuir a Cabral "prudência chegando ao extremo limite que ultrapassado se torna em cobardia". É referência ao fato de que "tendo as naus quase de todo carregadas, evite o combate com as naus do Samorim", e indica que o Descobridor do Brasil descumpriu a finalidade principal da expedição. Em vez de demonstrar a força que asseguraria o monopólio comercial em Callecute, nas Índias, criou problemas que só seriam resolvidos mais tarde por Duarte Pacheco. Para que a bravura dos portugueses não pudesse perdoar a falta, a "prudência" deveria estar muito bem caracterizada.

Que existiu motivo justo para a destituição, pode ser deduzido da carta que Afonso Albuquerque, tio da esposa de Cabral, endereçou a D. Manuel em dezembro de 1514.
O documento está incompleto em virtude de se acharem alguns trechos apagados pelo tempo, mas no que restou, pode-se ler:

"(...) como obra de minha obrigação que neste caso tenho a minha irmã e aos meus sobrinhos e a meus parentes; e por isso hei por pedir Pedro Álvares meu cunhado casado com minha sobrinha... eu fui o que concertei e ordenei este casamento... era mui bom fidalgo e merecedor disto... e acredito que Vossa Alteza tinha de sua pessoa o contentamento dos seus serviços e de sua bondade... agora Senhor vejo esta quebra sua ante Vossa Alteza durar muitos dias em tempo que Vossa Alteza se serve geralmente dos cavaleiros e fidalgos do vosso Reino... os quais recebem mercês e rendas... segundo cada um faz e merece... Assim o tendes lançado de vosso serviço e quanto a mim mais parece que a culpa deste feito era sua... hei de crer que ele tem certo o perdão e galardão de Vossa Alteza como vimos por experiência em outras pessoas serem lhe seus erros perdoados... eu Senhor vos beijarei as mãos por ele ser chamado de Vossa Alteza aconselhado e repreendido e tornado em vossa graça e serviço...".

Por que haveria Afonso de Albuquerque dizer que lhe parecia culpa de Cabral o "ter sido "lançado" do serviço do rei". E por que haveria de pedir perdão para ele, de pedir para que fosse chamado, repreendido e aconselhado e, depois disso tomado novamente a serviço?

Se El-Rei respondeu, não se sabe. Mas que não atendeu, isso é certo. Cabral ainda continuaria vivo por mais três anos, sem que nenhum outro encargo lhe fosse confiado.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A peruca de Dilma – Jayme Copstein

A política é realmente arte de iniciados, fora do alcance das pessoas comuns. Satirizado como "Indio-quem?" logo que seu nome surgiu como candidato a vice-presidente, em poucas semanas o deputado Índio da Costa (DEM-RJ) fez mais estragos na campanha de Dilma Roussef que os marqueteiros de José Serra em todos os meses anteriores. Até agora a candidata de Lula e os petistas não conseguiram descolar o rótulo de intimidade com as Farc que ele lhes grudou.

Dilma e os petistas acusaram o golpe. Dilma, em entrevista a uma emissora do Rio Grande do Norte, tentou retomar a comparação do Governo Lula com FHC, desqualificando Índio e acusando Serra de usá-lo como menino de recados, para infundir medo ao eleitorado, como "ocorreu com Lula em 2002". Não adianta falar da careca de Serra porque ele não diz uma palavra sobre a peruca de Dilma. E Índio da Costa já não pode mais ser devolvido ao anonimato.

De qualquer maneira, o pior não veio de Serra, cavalheríssimo em suas colocações, nem mesmo do exuberante Índio da Costa. O pior veio do aliado Ciro Gomes, enraivecido por ter sido usado, ele sim, como menino de recados de Lula. A recente declaração de que vai votar em Dilma apenas dá o dito pelo não dito, mas não apaga o desabafo anterior, de quando afirmou que ela é menos preparada que Serra para exercer a Presidência. Ciro apenas ganhou lugar de honra no Bloco dos Revogáveis Irrevogáveis, na boa companhia de Aloizio Mercadante, o obediente tarefeiro do Presidente.

Alem de Índio da Costa e Ciro Gomes, Dilma devia responder a Helio Bicudo, vice da chapa de Lula na eleição para o Governo de São Paulo em 1982 e que em 2005 deixou o PT, desiludido com os rumos do Partido. Em entrevista no início deste mês ao jornal O Estado de São Paulo (http://tinyurl.com/3y3dtay), Bicudo ao declarar seu voto em Marina Silva, após afirmar que "Lula quer Dilma Rousseff no poder para continuar mandando no País", acrescentou:

"Acho José Serra um homem competente. Plínio (Arruda Sampaio, candidato pelo Psol) é meu amigo e um homem de grande valor, que deixa tudo de lado para atender ao interesse público. Mas, Marina Silva expressa o ideário de um país onde todos são iguais, comprometido com os direitos humanos, não só relacionados à pessoa, mas ao meio ambiente."

Por sua vez, os petistas também "encheram a bola" de Índio da Costa e da oposição, ao ameaçar processar uns e outros para obrigá-los a se calar. É beco sem saída. Como poderia prosperar qualquer medida judicial nesse sentido, se não há como negar a intimidade, documentada por fatos, como a hospitalidade ao ex-Padre Medina, o embaixador da Farc no Brasil, ou por registros no Foro de São Paulo? É só acessar http://tinyurl.com/23hdoe9, para ler a relação dos "Partidos Membros". Ou http://tinyurl.com/272e9hv
para ver e ouvir o auditório inteiro do Foro São Paulo, do qual participavam José Eduardo Cardozo, Valter Pomar e Marco Aurélio Garcia, aplaudindo a solidariedade e as condolências de Daniel Ortega às Farc, pela morte de seu fundador e principal líder, Pedro Antonio Marin, o comandante Manuel Marulanda Vélez da guerrilha colombiana.

Ademais, a esta altura dos acontecimentos, negar ou escamotear tal intimidade, não só com as Farc, mas com outras facções similares – Cesare Battisti está aí, lépido e faceiro – não parece um sólido exercício de lealdade, ao menos com o eleitorado.


 

terça-feira, 27 de julho de 2010

Que mal tem? – Jayme Copstein

Já arrefece o impacto da morte, no Rio de Janeiro, do adolescente Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães. Vai cedendo a outros personagens o lugar que ocupou momentaneamente na tragédia brasileira, cuja extensão pode ser medida pelo número de vítimas em ocorrências de trânsito.

Os números são aterradores. Nos dias seguintes ao do episódio os jornais publicaram estatísticas, relatando um acidente de trânsito a cada dois minutos, só computados os ocorridos nas rodovias. No total, 42 mil pessoas morrem por ano (uma a cada 15 minutos) no tráfego das estradas e das ruas do Brasil, porque em mais de 99% dos casos alguém comete imprudências. Ou seja, pequenas transgressões, "que mal não têm porque prejudicam ninguém".

Quando as autoridades sofrem acessos de moralização (sempre fugazes) e fingem agir com rigor, o país é unânime contra a "indústria das multas". Um estacionou "só cinco minutinhos" em fila dupla, outro passou "ligeirinho" o sinal vermelho, não tinha ninguém no cruzamento, um terceiro até dirige melhor quando entorna umas que outras, todos botam o pé na tábua quando não tem pardal à vista. Nada além de pequenas transgressões que mal não têm porque não prejudicam ninguém.

No Rio de Janeiro, funcionários municipais interditam alternadamente, da uma às cinco da manhã, uma e outra das entradas do Túnel Acústico, nas terças e quintas-feiras, para reparos e conservação. Se as obras vão ou não se realizar, não lhes diz respeito. É com outro departamento. Interditam e vão embora.

Naquele dia, não havendo manutenção no Túnel Acústico, à uma da madrugada três adolescentes decidem aproveitar o declive da pista para praticar skate. A hora e o local são inadequados para a prática de qualquer esporte, havia a interdição, mas como fazer em outra hora e em outro lugar, se só naquele lugar, com aquele declive, não passavam carros porque estava interditado e sem policiamento? Que mal tem se não prejudica ninguém?

Por sua vez, os PMs escalados para o local, não se colocavam na entrada do túnel para impedir a violação. Punham-se na saída para cobrar "pedágio" dos transgressores. Rapazes ricos, a quem não falta o dinheiro do papai, que mal tem extrair-lhes alguns "trocados" se não prejudica ninguém?

Apostando na impunidade, jovens bem aquinhoados vão fazer "racha" no túnel interditado. Não havia ninguém, os PMs eram "compreensivos", por que não? Que hora e lugar melhores, se não nada passava, nem gente, nem carros etc. etc. etc. Que mal tem se não prejudica ninguém?

Acontece o atropelamento, mas ainda não é tragédia porque o "alguém" atropelado ainda não foi identificado. Ele ainda é "ninguém". E sendo "ninguém", o pai do atropelador sente-se autorizado a negociar com os PMs a impunidade do filho. E a teria comprado se, de repente, não viesse a notícia de que o "ninguém" era "alguém", filho de Cissa Guimarães e de Raul Mascarenhas, dois nomes de expressão do mundo artístico.

A Nação entrou em choque. As pessoas indignaram-se, bradaram por justiça, mais uma vez quiseram a pena de morte, a prisão perpétua, o linchamento, esquecendo que, lá atrás, sobraram de episódios semelhantes os despojos do mendigo andrajoso, do índio embriagado, da "baixa" prostituta, do biscateiro sem-teto, de trabalhadores humildes nas paradas de ônibus, enfim, da fauna do mundo-ninguém, este mundo sem rosto por onde a tragédia passa antes de chegar a "alguém".

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dia de Mariana – Jayme Copstein

De certa feita, pedi a Mário Quintana que me decifrasse o enigma: como diferenciar o poeta maior do poeta menor? A pergunta tinha sentido. Na época, andava em curso a maior das pequenas asneiras ditas todos os dias neste país: Manuel Bandeira era o maior dos poetas menores.

O que queriam dizer com isso? Todos sabemos a diferença entre mais talento e menos talento. Não era o caso, era questão de "estatura", demolida por Quintana com uma frase: "Acho que um fala de gansos, o outro, de patos."

Lembrei-me da cena porque hoje é dia de Mariana Bertolucci autografar seu excelente "Bailarina sem breu", na Praça de Eventos do Barra Shopping Sul, às 8 da noite. Mariana assina Vip RS, a coluna social de Zero Hora, área do jornalismo também incluída quando rolam besteiras sobre o "maior" e o "menor".

Aqui não se precisa da ironia demolidora do Mário Quintana para resolver a questão porque ela se simplifica. Não há temas maiores ou menores, mas bons e maus jornalistas, os que sabem catar a notícia até em narizes vermelhos quando sopra o primeiro vento do inverno e os que não conseguem enxergar a destruição de Herculano e Pompeia porque as cinzas do Vesúvio taparam a visão.

É assim tão simples porque há um metro preciso para se avaliar o talento de quem escreve: o manejo da palavra. Basta ler no jornal as frases com que Mariana Bertolucci conta o que vê para se descobrir a jornalista competente e a escritora de talento. Mas como as notícias de sua coluna sempre deixam gosto de "quero mais", ela passou a escrever "o mais" em seu blog, de onde colheu as crônicas de "Bailarina sem breu":

"A neve castiga, a água aterroriza, o sol queima. Ainda há quem reclame de que não é mais possível pagar por raios cancerígenos em câmaras de bronzeamento artificial. Ao contrário do que se esperava, não vivemos a revolução tecnológica. A revolução contra tudo o que temos feito por aqui é a natureza que protagoniza. Sem arcas, nem Noés. A hora é de colher o que não foi plantado. Sem que se roube a esperança. Porque ela não tem desvio. Não se vende, não dá status, não tem versão genérica." (Desejos mais simples, página 13).

E tem mais, muito mais: "Não estou pregando o fim do 'e foram felizes para sempre'. Só acho que as pessoas, mesmo que não tenham obrigação de ser felizes,
não têm sido." É só ir só ir buscar logo à noite, às 8 em ponto, na sessão de autógrafos, na Praça de Eventos do Barra Shopping Sul.

Mural

Carlos Brickmann, em "Este coqueiro que dá coco", sobre a violação do sigilo fiscal do tucano Eduardo Jorge Carlos Pereira,:

"Um dia, ao acordar, uma alta funcionária da Receita Federal em Mauá, SP, sentiu uma tremenda vontade de violar o sigilo fiscal de alguém. Foi para o escritório, um nome lhe chamou a atenção: Eduardo Jorge Caldas Pereira. Pera em calda, imaginou. Que engraçado! Com um nome desses, e ainda por cima tucano, tem mesmo de ter o sigilo violado. (...)

Não acredita? Então, vamos às perguntas concretas: se a moça violou o sigilo fiscal do tucano, agiu sozinha ou recebeu ordens de alguém? No caso, de quem? Violado o sigilo, para quem foram entregues os dados indevidamente obtidos? Com que objetivo? Em latim, a pergunta é: Cui Prodest? Em português, "Quem se beneficia?" A frase é pronunciada por Medéia numa tragédia de Sêneca: quem se beneficia do crime é quem o cometeu. Não é a moça. No máximo, ela é instrumento. Os criminosos, ou criminosas, devem ser procurados mais acima."


 


 

domingo, 25 de julho de 2010

Be-a-bá da democracia – Jayme Copstein

Discute-se agora na Inglaterra se a burka e outras peças do vestuário feminino árabe devam ser proibidas. Há um ministro de Estado dizendo que a restrição contraria a tradição democrática do país, mas as pesquisas de opinião revelam que 65% dos cidadãos apoiam a proibição por temerem que terroristas islâmicos possam usá-las como disfarce.

A quem tenho colocado a questão não me dá contribuição válida ao debate. Uns são incondicionalmente favoráveis à "cultura deles", outros, incondicionalmente contrários a ela. Aos que sobram, é questão muito distante. A maioria maciça da nossa população de origem árabe é cristã maronita ou católico-romana e o número de islâmicos não é chamar a atenção.

É extraordinário, porém, que um país como a Inglaterra, já tendo sofrido na carne as agressões do terrorismo, ponha no debate, em igualdade de condições, a liberdade de expressão religiosa e a segurança da população. É parte de uma fascinante tradição democrática que tive ocasião de testemunhar e de com ela me deslumbrar quando estive em Londres pela primeira vez, em 1974.

Com exceção de período 1945-1964, em que houve relativa liberdade no Brasil – oposição consentida até certo ponto, repressão a adversários e conspirações para depor o governo – eu vivera sempre sob ditaduras, a do Estado Novo de Getúlio, até 1945, e a dos militares, começada em 1964 e então sem fim à vista.

A maior experiência prática, em termos de democracia, eu a vivera um mês antes, nos Estados Unidos, ao me deparar, em uma esquina da Broadway, com um sujeito instalado em uma mesa, junto a um poste onde colara um cartaz em que pedia, com letras garrafais, assinaturas para requerer do Congresso o impeachment do presidente Richard Nixon.

Temeroso, disse ao meu guia: "Vamos sair daqui antes que a Polícia chegue para encher todo o mundo de porradas!" Ele caiu na gargalhada e me olhava e não conseguia parar de rir. Alguns meses depois, Nixon renunciou para evitar o impeachment.

Quando cheguei em Londres, um mês depois, fui assistir em Hyde Park aos comícios dominicais. O Park é o espaço reservado a qualquer cidadão, britânico ou não, que deseje expor suas ideias, sejam elas quais forem. Mas como é proibido falar mal da Rainha com pés no solo da Inglaterra, a Municipalidade providenciou pequenos pedestais nos quais os oradores sobem para dizer o que bem entenderem, até mesmo em relação a Sua Majestade, sem infringir a lei.

Naquele domingo, havia um comício de gays e afora os militantes e simpatizantes – não eram muitos – havia mais quatro pessoas, entre elas uma dupla de bebuns que lembrava muito Mutt & Jeff das histórias em quadrinhos: um deles era baixinho, caladão, o outro alto e palrador, que a todo momento contestava as teses do orador. O meu inglês mendigo não me permitia entender tudo o que diziam, a não ser quando o bebum perguntou: "Como é que pode, homem com homem, mulher com mulher?"

De novo, não consegui entender a resposta, mas pude intuir qual teria sido porque ele puxou o bebum baixinho para junto de si – mais lhe deu uma gravata do que um abraço – e berrou: "Arranjei uma namorada!"

Neste momento, a Polícia interveio. Foram advertidos de que estavam impedindo a livre manifestação do pensamento. Ou guardavam os limites ou iam embora. A dupla escolheu a segunda hipótese e lá se foi, cambaleando, um apoiado no outro, na direção do horizonte, protagonizando uma cena chapliniana.

Foi o meu be-a-bá da democracia.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O baixinho do bar – Jayme Copstein

Sempre há um baixinho pelos cantos de qualquer bar, que não incômoda ninguém, desde que ninguém o incomode. Bom é tomar tento e não querer descontar valentia no seu lombo. Quase sempre dá errado.

O tema, aliás, nem é novo. Simões Lopes Neto já o imortalizou em "Deve um queijo!", cujo personagem, o velho Lessa, "homem assinzinho... nanico, retaco", foi cobrado em um queijo por um castelhano, só porque era baixinho e de Canguçu. Pois o velho Lessa, abaixo de pranchaços de facão, tanto empanturrou o castelhano de queijo que o atrevido saiu ventando porta afora, todo se vomitando e mais, que não foi dito, mas ficou subentendido. No tempo de Simões Lopes Neto, certas coisas não se mencionavam em nome do bom gosto.

Pois tudo me veio à cabeça lendo a insistência de Hugo Chávez em bancar o fanfarrão de bar. Até nem vou dizer que ele devia se mirar em outro valentão, Manuel Noriega, o onipotente caudilho do Panamá, dado a intimidades com o pessoal do pó e que depois de curtir 20 anos de cadeia nos Estados Unidos, começou agora a cumprir mais sete na França.

Pela enésima vez Chávez briga com a vizinhança depois de flagrado dando abrigo a terroristas das Farc e do ELN. Tantas vai fazer que um dia o velho Lessa vai lhe enfiar o queijo pelas fuças adentro.

A flecha do Índio

Desde que a campanha eleitoral começou no Brasil, informalmente como tudo neste país, leio nos jornais os abalizados analista políticos dizendo que José Serra estava caindo na cilada do PT, querendo partir para a briga. Por mais que tenha procurado, não encontrei ainda uma notícia que disso me convencesse.

De repente, surge do nada um Índio da Costa para ser o vice de Serra. Meio minuto depois dos abalizados analistas políticos repetirem a velha piada do "Indio, quem?!?", o Índio-Quem soltou um flechaço que tonteou os adversários. O colunista do Diário do ABC, de São Paulo, Carlos Brickmann, gozou a situação em "Tem curare na flecha do Índio":

"Metralhadora giratória? Erro de cálculo? Não: a flecha de Índio da Costa tem a ponta envenenada e alcançou exatamente os alvos que queria. Primeiro, fez o PT mudar de agenda: os petistas abandonaram os ataques a Serra e passaram a atacar seu vice (que não tem problemas com isso: vice não é votado).

E ampliou uma declaração anterior de Serra, que acusou o Governo petista de não cuidar das fronteiras com a Bolívia, que seria frouxa na repressão ao tráfico de drogas para o Brasil. O presidente boliviano Evo Morales é, como o PT brasileiro e as FARC, o grupo de narcoterroristas colombianos, membro do Foro de São Paulo, grupo que reúne forças latino-americanas que se declaram de esquerda.

Processos contra Índio? Bom para ele, bom para a candidatura Serra. Chances de êxito, pequenas: a ligação entre o PT e as FARC, via Foro de São Paulo, existe, é oficial, está no site do Foro. Basta clicar http://tinyurl.com/23hdoe9 e, depois, escolher Partidos Membros.

Em http://tinyurl.com/272e9hv, assista a um encontro do Foro, com altos dirigentes petistas: José Eduardo Cardozo, Valter Pomar e Marco Aurélio Garcia".

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A pena do ganso na Copa da África – Jayme Copstein

Na sexta-feira passada, mais uma vez me lembrei do "velho" Archymedes Fortini, com quem convivi por mais de 15 anos na Redação do antigo Correio do Povo. Fortini foi ás de reportagem em seu tempo (idos de 1910-1920) e trazia um furo por dia, praticamente sem sair da Rua da Praia, enquanto os colegas viravam o mundo pelo avesso, mas em vão.

Certa manhã em que estávamos apenas os dois na Redação, perguntei-lhe pela "mapa da mina". Não havia segredo, conforme me explicou e relatei no livro Ópera dos Vivos: "Eram uns trouxas. Saíam correndo como bando de marrecas alvoroçadas, enquanto eu ia para a rua buscar o feijão com arroz. Se o caviar caía no prato, quebrava a rotina".

Pois me lembrei do Fortini na sexta-feira passada, ao encontrar, depois de muitos anos, o casal Hajimu e Ceci Hirano, colegas de jornalismo ainda na velha Zero Hora da Rua Sete de Setembro, antes de ser incorporada ao Grupo RBS. O casal já se aposentou das redações. Ceci, especializada em saneamento, hoje dá assessoria de imprensa a empresas e repartições do setor. Hirano encerrou a carreira de repórter fotográfico quando fechou a revista Manchete. Hoje é tradutor juramentado e se dedica voluntariamente ao intercâmbio Brasil-Japão.

Foi reencontro de abraços apertados e ruidosas manifestações de apreço como acontece entre amigos após longo tempo de ausência. E também por um segundo motivo: estávamos ali para aplaudir um "guri" que praticamente víramos crescer, o Dr. César Boeira da Silva, naquela festa empossado como presidente da Agadie, a Associação Gaúcha dos Advogados de Direito Imobiliário e Empresarial.

Quando jornalistas veteranos se encontram é inevitável a comparação das épocas. Nada sobre as vantagens ou desvantagens da pena de ganso, da máquina de escrever ou do computador, apenas sobre o que era e continua sendo notícia. Hirano me conta da Seleção do Japão, a grande surpresa da Copa da África do Sul e que só foi eliminada nos pênaltis pelo Paraguai. O goleiro Yoshikatsu Kawaguchi devia ser muito conhecido dos gaúchos. Só não é porque ninguém se deu conta de que, ainda adolescente, ele aprendeu a jogar na posição, sendo treinado pelo finado Schneider, preparador de goleiros do Esporte Clube Internacional.

Kawaguchi e outros jovens vieram a Porto Alegre em um programa de intercâmbio firmado com o Colégio Shimizu (Kiyosho), da Província de Shizuoka, onde o futebol recebe atenção especial. Vários de seus alunos têm se profissionalizado e três deles, contando Kawaguchi, integraram a Seleção Japonesa deste Mundial.

Se Hirano não tivesse me contado, não teria sabido. Ao menos os jornais que li não trouxeram uma linha a respeito. O "velho" Fortini tinha razão, quando escrevia seus textos com pena de ganso, há quase 100 anos: a rotina ainda é uma boa fonte de notícias – o furo é como o caviar que cai no feijão com arroz.

A propósito

O time do Shimizu volta a Porto Alegre na terça-feira da semana que vem e fica 10 dias no Rio Grande do Sul. São 18 atletas que vêm acompanhados do treinador Masayoshi Otaki, por sinal também professor de Contabilidade do educandário. Cumprem programa que inclui jogos com equipes do Grêmio, Inter, São José, Juventude e SER Caxias.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Cadê o nosso apito? – Jayme Copstein

Os jornais de Porto Alegre dedicaram ontem grandes espaços ao assalto contra a médica Cláudia Hilbig, dentro do Posto de Saúde Vila dos Coqueiros, baleada na perna mesmo sem reagir – sequer com palavras – à exigência de entregar as chaves do carro aos bandidos.

O caso teve repercussões: o Presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, Dr. Paulo Argollo Mendes, revelou que há quase uma década está alertando o Poder Público sobre a insegurança de alguns postos. O Coronel Antero Batista, Comandante do Policiamento da Capital, repetiu o comentário de décadas de seus antecessores: não pode colocar um PM em cada posto. O Secretário Municipal da Saúde, Dr. Carlos Henrique Casartelli decidiu suspender o funcionamento do Posto, o que equivale à velha prática de tirar o sofá da sala, coisa que se faz, sem adiantar grande coisa, desde que o cacique Taparica viu sua filha Paraguaçu engraçar-se pelo fogo que saía do trabuco de Diogo Álvares, o Caramuru.

Aliás, o Caramuru entrou nesta história porque tudo parece conversa de índio, como diz aquela velha canção de carnaval – "Índio quer apito". Será que as ilustres autoridades se sentirão ofendidas se perguntarmos onde estão os nossos apitos?

Questão de geografia

A Polícia de São Paulo prendeu na semana passada um casal de estudantes (ele é peruano), sob acusação de pirataria. Mantinham um site na Internet, o Brasil Séries, para revelar onde obter acesso gratuito e gravar filmes e séries populares da televisão, como o chatíssimo House, mais o Friend e o Big Band Theory, a respeito dos quais não dou palpite porque nunca os assisti. Segundo a notícia, o Brasil Séries recebia 800 mil usuários (não confundir com acessos, o que já seria movimentação respeitável).

Com toda a franqueza, não sei se o casal cometeu realmente algum crime, como alega a Polícia de São Paulo, pois recebia doações para manter o site. Os políticos brasileiros também recebem doações para indicar o "mapa da mina" e a Polícia não anda atrás deles, a não ser que cometam a imprudência de estar do "outro lado".

A Polícia também alegou que o site recebia patrocínio comercial. Mas no fim de 2009, segundo noticiou a revista Exame, os técnicos do Tribunal de Contas da União identificaram superfaturamento de 120 milhões de reais em obra do governo no setor de energia, orçada em 309 milhões de reais.

Os responsáveis sequer negaram o superfaturamento, mas alegaram que técnicos do Tribunal de Contas são uns exagerados: eram "só" 78 milhões de reais. Não se sabe quantos são os "usuários" do "patrocínio", mas não sejamos exagerados: bem menos que os 800 mil do Brasil Séries serão estes "beneficiários" do Brasil Nada-Sério.

A propósito: o TCU mandou reduzir a conta nos 120 milhões, mas a Polícia não foi atrás de ninguém. Pura questão de geografia: são todos do lado de cá...

Mural

Nosso colega Alexandre Garcia, da Rede Globo, acrescenta a "O telefone que o Brasil não ligou" (Coluna do dia 16): "Meu xará Graham Bell já era, como inventor do telefone. O Congresso dos USA reconheceu, há uns cinco anos, como verdadeiro inventor (lá prá eles) o Antonio Meucci, um italiano de Nova Jérsey, que fez antes, mas não havia registrado. Era o Landell de Moura deles. Aqui, a gente não liga mesmo. País grande e bobo".

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Polanski e o Bispo – Jayme Copstein

Leitores me chamam a atenção para o que lhes parece semelhança entre os crimes do cineasta Roman Polanski e do religioso Roger Vanheluwe, ex-Bispo de Brugges (Bélgica), e também sobre a diferença de tratamento que a mídia deu aos dois casos.

Por mais insistências que receba, não tenho como me arvorar em juiz das pessoas e da mídia na cobertura dos casos específicos, não porque me sobre a religiosidade do "como julgares, assim serás julgado", mas por me faltarem dados essenciais para a análise correta. Tudo que sei é o que todos leram nos jornais e na Internet, ou ouviram no rádio e na tevê.

Acho que alguns leitores têm razão quando se queixam do aproveitamento do crime do Bispo como pretexto para atacar rudemente a Igreja, mas a perdem quando argumentam, a meu ver absurdamente, que ninguém vincula o crime de Polanski à arte cinematográfica.

Nem teriam como fazê-lo. Há uma diferença substancial entre um artista, a cuja conduta pessoal não se vincula a obra, e a natural ascendência que um sacerdote de qualquer religião exerce sobre seus devotos, marcadamente sobre crianças. Ademais, o crime de Polanski tem estado na mídia há duas décadas, desde que foi cometido. No contraponto, os abusos sexuais de sacerdotes católicos têm sido ocultados por tempo bem maior.

Não saberia dizer quantas vezes a publicidade em torno de Polanski evitou que ele ou outro gênio de qualquer arte tenham reincidido no crime. Da mesma maneira que é impossível dizer quantas crianças teriam sido poupadas da violência sexual se a hierarquia da Igreja não tivesse ocultado os abusos de alguns de seus sacerdotes.

Polanski já foi denunciado, preso e julgado nos Estados Unidos. Pode ser deportado se for a qualquer lugar, fora da Polônia, da França ou da Suíça, cuja Justiça negou extradição por "falhas na instrução do processo". Roger Vanheluwe, o ex-Bispo de Brugges, está recolhido voluntariamente a um mosteiro. Mas não há ordem de prisão para ele em nenhum país do mundo. Sequer foi denunciado à Polícia.

Estes são fatos que posso recolher do noticiário. Quanto aos filmes de Polanski, continuarão a ser aplaudidos, assim como as peças de Jean Genet ou os contos de O. Henry. Com toda a certeza também qualquer produção artística do ex-Bispo de Brugges será apreciada se ele se mostrar talentoso.

Mural

Sobre "A esquerda em baixa" (coluna de ontem) James Masi escreve: "Digo isso há décadas, apenas observando os EUA: os republicanos põem a casa em ordem, para depois virem os democratas e gastarem toda a riqueza acumulada durante o período republicano, muitas vezes criando despesas que não podem mais ser diminuídas quando saírem do poder. Levam o país próximo ao abismo da bancarrota econômica ou deixam bombas armadas para mais adiante, como essa crise imobiliária, criada no governo Carter. Leia sobre CRA em http://tinyurl.com/2cadzhq.
Essa ideia "brilhante" forçou os bancos a emprestarem a quem não teria recursos, levou 30 anos para explodir devido à pujança econômica dos EUA. Mas explodiu, um dia esses "almoços-grátis" explodem, inevitavelmente".