sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A respiga da semana – Jayme Copstein

Faz muito tempo que não ouço jornalistas falarem em respiga (ato de recolher as espigas de um milharal, sobradas na lavoura, após a colheita). Nas velhas redações, significava ler todos os jornais e fazer síntese de matérias importantes ou interessantes que aquele jornal não tivesse publicado. Se a palavra desapareceu do jargão profissional, a respiga ressuscitou com toda a força e utilidade na Internet. Há inúmeros blogs desempenhando o papel com muita competência.
Fosse eu fazer a respiga das coisas publicadas na semana que passou, em Porto Alegre escolheria artigo da socióloga e acadêmica de Direito Rose Moraes, sobre a diminuição das vendas na última Feira do Livro. Foi publicada no portal do jornalista José Luiz Prévidi (www.previdi.com.br) e ainda pode ser lida na seção "Ainda há tempo".
É a melhor análise do que ocorre com a Feira do Livro de Porto Alegre: "É o Centro que está matando a Feira do Livro". Leiam: "Fui uma das muitas pessoas abaixo dos 55 anos que não apareceu na Feira do Livro deste ano", ela argumenta. "O motivo é que não gosto do local onde ela acontece. Acho sujo, confuso, apertado. Não é um ambiente agradável para se fazer compras. É claro que a Feira ocupou a Praça da Alfândega nos anos 50 para ficar à feição de quem tinha de passar por ali. Hoje, porém, acho que ela é apenas uma pedra no meio do caminho dos que têm assuntos para resolver no Centro e estão com pressa de voltar para casa".
E conclui: "A Feira do Livro na Praça da Alfândega é um anacronismo de uma cidade que desapareceu. Ela vem de um tempo no qual a vida social de Porto Alegre acontecia no Centro, e minha mãe vestia suas melhores roupas e calçava sapato alto de bico fino para ir aos bailes do Clube do Comércio. Uma época onde não havia shoppings com ar-condicionado e estacionamento para os carros da classe média, já que a todos andavam de bonde".
Oriente Médio
Fora de Porto Alegre eu escolheria o artigo de Franklin Goldgrub, professor da PUC de São Paulo, "O conflito do Oriente Médio não cabe na camisa de força ideológica", publicado originalmente na Revista PUC Viva, da Associação dos Professores da PUC-SP http://www.apropucsp.org.br e reproduzido também em www.jaymecvopstein.com.br). Goldgrub mostra o que tem sido escamoteado nos rios de tinta e saliva derramados sobre o Oriente Médios:
Não é segredo que a esquerda passa por uma profunda crise, desencadeada pelo colapso da União Soviética e dos regimes comunistas da Europa Oriental", ele disseca. "São bastante conhecidos os problemas econômicos e os percalços éticos da Revolução Cubana, o caricatural regime norte-coreano, o autoritarismo de Chavez, o genocídio cambojano, o expansionismo chinês (Tibete). A ideologização do conflito do Oriente Médio, visando transformá-lo em algo análogo à luta de classes, com Israel no papel do país colonialista enquanto os palestinos são chamados a representar a população nativa oprimida doublé de proletariado explorado, tenta reafirmar a autoimagem idealizada do militante e recuperar a dimensão ética da esquerda".
E conclui: "O quadro é convenientemente amputado do seu entorno, ou seja, o interesse das ditaduras do Oriente Médio em manter suas sociedades em estado semifeudal, razão principal (mas nunca mencionada) de sua profunda hostilidade a um país cuja estrutura econômica e social é percebida como ameaçadora pelos sheiks, reis, emires, aiatolás, imans e generais".