quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Fora de lugar - Jayme Copstein

Afora as difíceis relações com jornalistas, cujo exercício da liberdade de expressão parece ofender vaidades e autoritarismos fora de época e de lugar, portanto sem nenhum sentido, o Judiciário começa a semear também ruídos nas suas conexões com a sociedade brasileira, particularmente com a do Rio Grande do Sul.
Trata-se das reivindicações salariais, cujos percentuais, todos os anos, são verdadeiros despropósitos em relação aos demais servidores públicos. É como se, de repente, o mito de Maria Antonieta – quem não tem pão, coma bolachas – se transformasse em virose que afetasse a visão periférica de seus portadores, impedindo-os de enxergar qualquer coisa além do seu próprio horizonte.
Há de se assinalar que, desta vez, ao contrário de anos anteriores, a postulação tem a marca da civilidade que sempre foi tradição do Poder Judiciário. Mas se o tom voltou ao que devia ser, a realidade continua fora de lugar. O Estado não tem como conceder o aumento no percentual que o Judiciário deseja. Nem é justo que o faça em detrimento dos funcionários dos demais poderes.
Os magistrados poderão alegar que a culpa não lhes cabe, mas também não pode ser imputada aos demais servidores, com seus salários de nada, menos ainda a qualquer um de nós, que enfrentamos escorchante carga tributária.
Nem é caso de sentar-se alguém no banco dos réus, não só porque foi soma de muitos equívocos que criou a presente situação de aprêmio nas finanças públicas. É também pela inutilidade de fazê-lo. Não adianta chorar sobre o leite derramado.
É preciso organizar o caos e transformá-lo em vida possível. Para isso, o sacrifício que se exige é de todos.

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