domingo, 25 de outubro de 2009

Os esbanjadores de talento – Jayme Copstein

Sábado estive no Nova Olaria para colher o autógrafo de Maria Luiza de Carvalho Armando em ""Pelos caminhos do mundo", título que não dá idéia do tesouro de poesia que o livro contém. Maria Luíza teve como berço a confluência de duas famílias tradicionais do Rio Grande do Sul. , dela fazendo parte Vera Armando, Adel Carvalho, Dinarte Armando e Paulo Armando, isso para citar apenas alguns nomes.


 

O que caracteriza e dá unidade à família, afora laços de profundo afeto, é o esbanjamento de talento. Adel Carvalho ("Por mais contas que se façam, / ninguém se apossa da verdade") deixou nome como empresário e político e terá chamado a atenção pelos discursos que fazia em versos, quando vereador à Câmara Municipal de Porto Alegre. De Paulo Armando, grande poeta da geração dos anos 1940 ("Estas ruas eu não sei / Mas acho que não têm fim. / Pra onde vai este bonde / Por ruas que nunca andei."), sobrou apenas o que ele próprio incluiu em dois livros ("Madrugada Desespero" e "Diagrama"). O resto, que não foi pouco, ficou pelos muitos bares que freqüentou, em Rio Grande, sua terra natal, em Porto Alegre ou no Rio de Janeiro onde viveu e morreu moço. Fui testemunha, certa feita, na Confeitaria A Dalila, em Rio Grande, quando escreveu um poema em um guardanapo e entregou a uma jovem bonita que lhe despertara a atenção, em mesa próxima. Se o guardanapo ainda existe ou se o poema tem agora outro nome e dono ou dona, não há como saber.


 

Com Dinarte Armando, também falecido precocemente, a devastação foi pior. Capaz de textos admiráveis, do lírico ao mais engraçado, encantava a audiência da antiga PRH.2 com a crônica do cotidiano "Bilhete para você" ou a fazia cair na gargalhada com o humorístico "Bola Murcha", gozando os torcedores do Grêmio e do Internacional. Mas, indisciplinado por natureza, não guardava nada do que escrevia. Depois da leitura ao microfone, simplesmente amassava a lauda e a jogava na cesta do lixo.


 

Fui tão longe nesta divagação porque é aí que as coisas se juntam. Dinarte e eu dividíamos a mesma sala na velha Rádio Farroupilha. Certa tarde, muito comovido, falou-me de uma menininha que perguntou para onde iam os dias que passavam. Não me disse quem era, deu-me a impressão de viver na mesma pensão em que ele morava. E escreveu um "Bilhete" comovedor. Pois abro o livro de Maria Luiza de Carvalho Armando e dou com o poema que ela preservou: ("..., tu não perguntes nunca, / para onde foram os dias que morreram / e morrendo, foram levando os dias /dos que estavam à margem dos caminhos".


 

Descubro que a menininha da pergunta era ela, e descubro mais: ao três anos de idade, a poeta Maria Luiza de Carvalho já fazia versos porque a poesia, longe de ser metáfora, é a indagação permanente que se faz à vida, e que ela seguiu fazendo pelo tempo afora, como o leitor pode sentir em "Retrato de aniversário" (página 129): "Não era meu retrato. Esta sede / que a pedra não expressa, / esta surpresa, / este medo, esta mágoa, esta dureza,/ essa ternura. // Não era nada eu. / Não começava / onde começo eu. / Onde me espanto / não era que a figura se espantava. / Não ria como rio e não olhava / a boca escancarada – como eu olho. // (...). O livro de Maria Luiza de Carvalho Armando, também belo projeto gráfico da própria autora, pode ser encontrado nas livrarias da cidade, principalmente na Bamboletras do Nova Olaria (Rua Lima e Silva), onde foi lançado..