quarta-feira, 2 de junho de 2010

O cipó da Ford – Jayme Copstein

Passados tantos anos, as versões sobre a desistência da Ford, de instalar montadora no Rio Grande do Sul, ainda se confrontam como se fora discussão sobre se houve ou não pênalti no último Grenal. A recente decisão do julgamento de primeira instância, mandando a Ford indenizar parcialmente os gastos do Estado com o projeto, tem sido apresentada como sentença final para o "eu não disse?" dos dois lados.

Levará muito tempo, ainda, até a questão ser resolvida definitivamente no STF. Contudo, subsistem alguns mitos, como o de que o baiano Antônio Carlos Magalhães conspirou com Fernando Henrique Cardoso para "roubar a Ford do Rio Grande", mas não resistem à simples análise da linha do tempo.

Ninguém esperava de Antônio Brito a façanha de perder a reeleição em 1998. Digo com a tranquilidade de quem nele nunca votou. Era governador jovem, com projetos atraentes para revitalizar a economia do Estado através da industrialização, mas foi acometido pelo "mal das alturas": a arrogância de quem se vê subitamente alçado ao cume do poder. Além da reeleição certa, era cogitado falado para uma futura Presidência do Brasil. Perdeu os poucos votos que lhe dariam a vitória no primeiro turno e ainda somou outras tantas defecções no turno final.

Portanto, até novembro de 1998, só bêbado é que Antônio Carlos Magalhães pensaria em conspirar para "roubar" a "nossa" Ford. Ademais, fora da Bahia, seu poderio não era lá essas coisas, tanto assim que teve de renunciar ao mandato, para não ser cassado ao violar o sigilo do painel do Senado.

O que afugentou a Ford do Rio Grande do Sul foi outro mito que os marxistas têm quase como dogma: o último capitalista será enforcado com uma corda que venderá em prestações aos carrascos. A piada funciona em mesa de botequim, nada tem a ver com a realidade.

Quando o PT assumiu o Governo, no quadriênio 1999 -2002, o que vinha pela frente foi explicado pelo novo secretário de Desenvolvimento Econômico e Assuntos Internacionais (Sedai), José Luiz Vianna de Moraes, o Zeca Moraes, cuja experiência no mundo dos negócios era com os camelôs da Praça 15. O jornalista Ayrton Centeno o entrevistou para Zero Hora e registrou em sua matéria, "a inversão da política industrial adotada nos últimos quatro anos, quando os privilegiados com os recursos do Estado foram grandes grupos nacionais ou multinacionais, casos da General Motors, Ford, Souza Cruz, Philip Morris, Brahma e Coca-Cola".

Minhas notas daquela época registram a recusa do governo Olívio Dutra de cumprir o contrato assinado por Antônio B|rito, pelo qual o Estado comprometia-se com 418,9 milhões de reais (234,3 milhões em obras de infraestrutura, 184,6 milhões em financiamento de capital de giro) e mais concessão de créditos de ICMS durante 15 anos, com 12 anos de prazo para retorno.

O governador Olívio Dutra alegou que eram excessivos os incentivos e recursos prometidos para atrair a Ford e que o contrato deveria ser renegociado. Contudo, executivos da Ford foram vítimas de grosserias de assessores de Olívio Dutra nas duas vezes que, convocados, compareceram ao Palácio Piratini para conversar. Na hora da audiência, foram avisados do cancelamento porque uma comissão de trabalhadores e trabalhadoras disso ou daquilo "havia chegado inesperadamente" e tinha precedência.

Foi quando a Ford decidiu não vender a corda da forca. Usou-a como cipó para pular fora. Aterrisou na Bahia.

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